domingo, 29 de janeiro de 2012

Conte-me sobre você


(para quem estiver pensando em fazer a tolice de se separar de alguém importante)

Conte-me coisas boas a seu respeito. Que você está bem, quase feliz. Conte-me que está se ocupando com algo de que gosta de fazer. Que passeia e se diverte. Que tem amigos leais. Que alguém lhe ama especialmente. Que se lembra dos bons momentos que tivemos, e dos engraçados, e sorri.

Conte-me coisas boas que têm lhe acontecido, as ruins deixe no mar do esquecimento. Não posso mais lhe confortar. Quero lhe imaginar sempre de semblante tranquilo e sorriso no rosto. Com cabelos ao sabor do vento e um batom suave nos lábios. E quase sempre com aqueles olhares de menina sapeca, que disfarçam seus trinta anos de vida.

Conte-me que no natal passado mandou-me um cartão de boas festas e que não chegou por culpa do carteiro. Que numa das suas orações se lembrou de mim para me abençoar. Que várias pessoas das suas novas amizades, embora nunca tenham me visto, conhecem-me de lhe ouvir falar. Mais as minhas virtudes que minhas falhas. Que pensou por várias vezes em voltar, mas sabe que o seu espaço já está ocupado, mesmo que não no coração, que sempre terá você num cantinho sagrado, a dizer quanto foi – e é e será -, importante.

Conte-me que um dia desses sonhou que se encontrava comigo, cada um com uma dezena de filhos ao redor e que brincavam juntos, como se fossem todos irmãos, os filhos que juntos não tivemos pela desistência mútua de se entender.

Conte-me que há muito já me perdoou e que se pudesse voltar no tempo nunca teria partido. Que eu lhe direi que você nunca partiu de verdade, que está bem viva aqui em algum lugar dentro de mim a esperar a porta se abrir completamente para então tomar conta de tudo.

Alberto Magalhães

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Um pedido no natal

22 de dezembro de 2011

Eu sou natural de Bagdá, onde há poucos instantes ouvi um estrondo de uma bomba que explodiu próximo da minha casa e soube que muitas pessoas morreram e membros foram separados dos seus corpos. Eu não fui ver, ainda sou criança e tenho medo.

Repentinamente eu fui transportado em pensamento para a periferia do Rio de janeiro onde uma adolescente foi atingida por uma bala perdida e depois para Moçambique onde havia os corpos de crianças mortas pela fome, deitadas na poeira da estrada por causa da guerrilha perversa, causada pela ambição insana de poder. Vi nos Estados Unidos uma mãe jogar um bebê no fosso porque estava desempregada. E fui girando e vendo pelo mundo cenas de terror.

Na minha casa não comemoramos festas natalinas, não reverenciamos Jesus nem esperamos o papai Noel vir do céu para nos trazer algum presente. Nada disso me ensinaram, eu vi na internet.

No entanto, nesse momento eu pensei nessas coisas. E orei a Alá: Senhor eu gostaria que nos mandasse um papai Noel. Um mensageiro celeste. Alguém que trouxesse no saco uns ensinamentos com uma ordem no final: “cumpram, para o bem de todos.”

Que dissesse que o amor, a fraternidade, a solidariedade, a compreensão, a compaixão eram elementos essenciais para que, depois de considerado aprovado, o cidadão recebesse um documento (mesmo aos cinqüenta anos) intitulado “adulto”, apto ao emprego, ao casamento, ao mandato eletivo, a herdar a herança deixada por seus pais...

Que dissesse que o título de adulto fosse anulado a partir do dia que o cidadão voltasse ao estado anterior. Anulando automaticamente todos os direitos concedidos.

Que garantisse à criança realizar sonhos como crescer saudável física e psicologicamente. Ver os pais só “dormirem no seio da terra”, bem velhinhos, quando seus netos tiverem crescidos em seus colos. Deixar as crianças, antes de extinguir o seu tempo por aqui, plantar muitas árvores, ler muitos livros, casar com a(o) namorada(o) da sua infância, viajar para vários lugares e saborear outras culturas, poder viver sem medo e sem conviver com a violência. Que cada um pudesse escolher uma profissão desejada, para ser útil a todos e assim também ter tudo o que precisa.

Que a paz seja o sonho de todos, o bem maior, porque ele preserva todas as vidas.

Ligo o computador e peço isso diretamente a Alá pelo Google. Lá encontro uma resposta ao meu pedido: Deus já enviou à terra esse papai Noel. Deram-lhe o nome de Jesus.

Alberto Magalhães

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O desejo realizado

As pessoas almejam obter ótimos empregos, altos cargos, polpudos salários, empreender grandes negócios, possuir todos os bens de consumo disponíveis no mercado, imóveis bonitos e confortáveis, querem estar muito belas, com seus corpos em forma, rijos, “sarados”, cabelos e pele viçosos, brilhantes ansiosas por agradar ao mundo e serem agraciadas por ele. Querem ser bem sucedidas em tudo o que o seu coração deseja. Mas mesmo as pessoas que conseguem isso nem sempre conseguem conhecer o sentimento de realização plena, de felicidade alcançada. Como se o espaço interior da realização pessoal fosse um vazio incomensurável. Temos o exemplo da atriz americana Marilyn Monroe, que apesar de linda, famosa, rica, desejada e admirada no mundo não se sentia feliz e teve um final deprimente. Elvis Presley, Michael Jackson, Amy Winehouse, entre tantos que não conseguiram encontrar felicidade na realização pessoal física, financeira, social, profissional. Parecia que quanto mais realizavam seus desejos mais definhavam na frustração de superar a sua condição de pessoa vulnerável, frágil, fisiologicamente comum.

Pareciam demonstrar que quando prosperavam e ocupavam todos os espaços que podiam ficavam limitados, tolhidos, deficientes, engessados na sua própria condição humana que não lhes permitia subir além, transcender, ser nada mais do que já eram. E havia tantos artistas, tantas beldades, tantos talentos em cada área em que eles se destacavam. Embora a soma dos seus talentos e qualidades não os fizessem sentir-se realmente especiais e plenamente realizados. Precisavam agora galgar um nível de excelência que outra pessoa ao seu redor não tivesse alcançado.

A realização de um desejo é a sua morte, ou seja: quando realizamos um desejo o matamos e então fica essa sede interminável de realizar outros desejos e vamos desprezando o que já realizamos, anulando-o como valor elementar ou pondo-o em segundo plano e abandonando ou negligenciando a nossa responsabilidade com o que foi conquistado, às vezes arduamente, preterindo pessoas que nos são caras e subestimando afetos que nos prendem à estrutura basilar da nossa alma. Lembro-me daquela frase tão comum na minha infância, e tão sem validade atualmente, gravada na traseira dos caminhões: “Não tenho tudo o que amo, mas amo tudo o que tenho.” Epicuro disse que a dor nasce do desejo. Certamente haverá algo ou alguém sublime que preencha esse espaço faminto do homem, esse vazio que parece imenso. Cada desejo a se realizar – com suas consequências -, é um convite para o caminhar fecundo e uma porta aberta para a descoberta do abismo interior.

Alberto Magalhães

domingo, 28 de agosto de 2011

O essencial num estalo

Porque gostas de me ouvir falar em casos fabulosos, em histórias passadas nas ruas e vielas de tempo revolto e de valentia nascida do medo de sucumbir frente ao adversário, sempre a me solicitar a repetição de cenas cruas e pujantes nunca pude discorrer sobre coisas mais relevantes ou simplesmente mais tenras e humanas – não heroicas, dividir percepções fecundas, teorias conflitantes, indecisões emblemáticas, experiências edificantes e superações.

Por isso eu preciso escrever, só assim eu sobrevivo à sombra da razão e me eternizo nessas linhas que ficam para a posteridade, testemunhas da vontade de superar o artificial. Porque alguém disse que é necessário escrever para reinventar o mundo ou até mesmo escrever como se nada mais restasse no mundo a não encher a alma de poesia. Para exorcizar a nossa mediocridade e assim, quem sabe num estalo, desfazer os conceitos hipócritas, preconceitos concebidos, dogmas estabelecidos e os sofismas delirantes. Talvez curar essa falsa lucidez mesquinha e emocionalmente danosa que impede o ser real emergir das profundezas do seu egocentrismo e conseguir encontrar as mais belas qualidades no fundo da sua alma, junto com os defeitos que o acompanham.

Talvez não seja tão difícil conseguir se escrevermos numa folha colada na porta da saída de casa, para lermos todos os dias: Na vida temos o mundo a descobrir, a amizade para distribuir, a alegria para sorrir, a felicidade para conquistar...

Alberto Magalhães

domingo, 12 de junho de 2011

Por quem os sinos dobram

Prossigamos despidos de todas as amarras que nos prendem aos nossos ensinamentos rudimentares e paradigmas “engessados”. Façamos como Ernest Hemingway no seu livro “Por quem os sinos dobram”, sabendo discernir entre todos os lados. Entre o bem, o mal e o neutro (para mim, em última análise, o neutro é o mal ao avesso – mas não se importem muito eu passei a ser um inveterado questionador. Os tolos chamam a tais, “rebeldes sem causa”- e os tolos porventura entendem de causas?).

Façamos o seguinte: hoje, questione sinceramente as suas convicções com as outras opiniões e ao final com os fundamentos práticos e subjetivos dos nossos ascendentes (tão menosprezados por essa geração de pessoas superficiais, vazias e limitadas) e sempre defenda, com firmeza, seus pontos de vista que sejam coerentes com seus princípios reformulados por você.

No âmbito geral o que hoje é (na aparência) talvez não o seja de verdade. O que ontem foi (algo de ruim ou de bom), talvez agora não seja mais. Pensem, questionem esse mundo indutor, busquemos agora as razões primeiras – não aquelas nos transmitidas nos redutos que nos cercam por pessoas maquiavélicas e pequenas , desprovidas de um mínimo de espiritualização positiva – nuvens sem água, que o vento da verdade em pouco tempo deteriora.

Alberto Magalhães

(POR QUEM OS SINOS DOBRAM - Acima de tudo o livro trata da condição humana. O título é referência a um poema, e invoca o absurdo da guerra, como a guerra civil, travada entre cidadãos de um mesmo país. "Quando morre um homem, morremos todos, pois somos parte da humanidade”/ Fonte: wikipedia). Alberto Magalhães

sábado, 14 de maio de 2011

Um alguém

Para me fazer rir sempre. Para dormir enroscada comigo. Para dizer que se sente segura ao meu lado. Para ser capaz de andar comigo no teleférico, mesmo tendo medo de altura. Para, de vez em quando, bisbilhotar o meu celular, bolsos e pasta. Para dizer: “se eu te pegar com outra, eu te deixo”. Para fazer os meus gostos nas horas certas. Para fazer eu me sentir a pessoa mais importante do seu mundo, mesmo que este seja modesto. Para se despedir com um: “cuidado!...” e me receber de volta com um simples e carinhoso abraço. Que tenha o prazer de me esperar para almoçar comigo, quando a fome não for enorme. Que eu seja o seu único e exclusivo amor, mesmo não tendo sido o primeiro. Que se aflija no dia em que eu tiver forte febre e seja a minha enfermeira. Que no dia em que, por algum motivo, se decepcione comigo seja capaz de apenas dizer: "a partir de hoje eu não vou mais amar você". E, se depois eu trocar tudo pelo seu amor, ouvir: “eu vou dar a nós dois uma chance”. Que esconda as minhas falhas da minha – e da sua - família. Que goste dos que eu gosto e despreze os que eu não gosto. Que me deixe enxugar a sua lágrima que eu fiz cair. Que, carinhosamente, atribua a mim os pequenos defeitos do nosso filho. Que, só comigo e com os que me amam, ria das minhas gafes. Alguém que seja capaz de me dizer as verdades que eu preciso ouvir, sem me fazer sentir-me um caso perdido. Que, silenciosamente, espere receber tudo isso de volta.

Alberto Magalhães

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Tragédia em Realengo

Talvez não seja muito difícil fazer uma leitura do evento ocorrido na escola Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro. Essa é uma tentativa de se adentrar nos meandros da mente do assassino Wellington e descobrir as suas razões, mesmo que equivocadas. Ninguém faria um ato bárbaro desses se não tivesse movido por fundamentos incontestáveis, sólidos na sua mente delirante. Para iniciar devemos observar que mais eventos como aquele não acontecem no mundo apenas por falta de oportunidade para o pretenso executor promover o atentado como, por exemplo, a impossibilidade do pretendente juntar os seus “algozes” no mesmo lugar, ou tê-los juntos no mesmo tempo e espaço, como aconteceu nas escolas que sofreram esses ataques, mundo a fora. Certamente Wellington se achou no direito de “punir” os seus “inimigos” que o haviam tratado com desnecessária insensibilidade, desprezo e desrespeito por anos. Atos socialmente impunes. Ele não considerava o seu projeto o de um louco ou de um monstro, mas de um “justiceiro”. Quem lê a bíblia e torna-se um fundamentalista, como ele muito bem demonstra, prega que Deus pune os “ímpios” com a morte e alguns se acham no direito de auxiliá-lo nessa tarefa, como se fossem um anjo da morte. O seu antecipado pedido de perdão ao Divino, em carta, não foi exatamente por causa das mortes que iria causar, mas da sua própria vida que iria deliberadamente encerrar naquele ato. De alguma forma esse tipo de pessoa considera-se “superior” aos seus desafetos, acha-se espiritualmente “iluminado”, por considerar-se incompreendido, injustiçado, perseguido e, portanto, especialmente acolhido pelo Ente divino. Na sua caminhada à escola Tasso da Silveira ele pode ter se sentido um herói, um justiceiro dos fracos, oprimidos e humilhados, dos incompreendidos, rejeitados, diferentes.  A preferência dele em executar as meninas pode ter se dado porque elas “podiam” e “deviam” ter-lhe sido solidárias e favoráveis, por serem mulheres, portanto sempre mais sensíveis e compreensivas. Ele certamente considerava-se um cidadão honrado, virtuoso, digno... E a cultura atualmente assimilada pela juventude feminina é a da sensualidade pura, da qualidade física e a de recepcionar, preferencialmente, o descolado, o transgressor, o despojado de valores éticos e morais e que interage com todos os segmentos pragmáticos. Tudo o que ele não era. E só elas, ao menos uma, poderia lhe ter reabilitado frente a eles. Se alguém teve a vontade para isso não teve coragem suficiente de se indispor contra a horda adversa. A sua solidão teria se tornado interiormente devastadora. No seu gesto extremo ele tentava sair da insignificância que lhe submeteram para a notoriedade dramática, correspondente ao seu dilema: ser mais um anônimo humilhado e preterido ou ganhar relevante projeção exatamente por meio daqueles que o jogaram para o fundo do poço? Ele era muito desajustado e a sua tentativa de sublimação veio num ato que não era só de ascensão, mas um misto de superação, vingança, justiça, catarse. O seu encontro com a libertação desse peso angustiante seria o encontro com a morte. Talvez, se pudesse, a de todos.
Alberto Magalhães

domingo, 27 de março de 2011

Libelo do ato ímpio

Recentemente eu escrevi um texto denominado “Carta a um amigo”, o qual está postado neste blog. Pois bem, isso não foi por acaso, como por acaso – dizem – nada acontece. Um colega de trabalho naquele momento pensava em tirar a própria vida por questões financeiras e outro por questões amorosas. Tudo transcorria dentro deles numa dimensão superior ao real – mas não pra eles. Para eles tudo teria chegado ao ponto final, nada mais estava importando por aqui. Mas as pessoas ao seu lado não se apercebiam da gravidade, para eles, dos seus dramas pessoais. Até que conversaram comigo. É interessante como tem pessoas que pensam que eu, geralmente, vivo como se estivesse no limite da perspectiva vivencial. Provavelmente eu demonstro isso sem me aperceber. Talvez em virtude disso eu seja receptor de tantos segredos que guardo a sete chaves. Pois bem, conversei com eles sobre experiências pessoais e outros fatos interessantes que contemplei na minha breve caminhada nesse mundo enganador. E, em síntese, de tudo o que conversei, relatei nesse curto texto – Carta a um amigo – a mensagem que servia de epílogo ao objetivo  pretendido. E como eu não tenho como ter acesso – embora gostaria –, pelo menos, aos dilemas cruciais das pessoas que estimo e que estão passando por uma grave crise existencial eu resolvi escrever – das minhas paixões, a maior – sobre parte do que eu disse aos pretendentes ao suicídio:

Eu lutei no útero por uma oportunidade de sobreviver, mesmo que fosse com outro(s). Cheguei só. Sobrevivi à formação do embrião, do feto, ao parto, à frustração de sair de um mundo aconchegante e só meu para a luz desse conturbado mundo. Retirado do casulo para ser entregue nas mãos de estranhos que me puxariam para outra realidade que não escolhi e onde seria apenas mais um. Sobrevivi a impiedosa asma nos primeiros anos, ao sarampo, rubéola, catapora, a uma queda de uma árvore de dez metros de altura aos oito anos, a um afogamento aos treze, e – já adulto - a três acidentes automobilísticos graves e sobrevivi a muitas outras situações que levaram outros a óbito.

Não tenho, no entanto, nenhum apego à vida já que ela, na verdade, não me pertence visto que dela não tenho o domínio, mas apenas a posse provisória. Mas também não posso renunciar a ela. Esta primeira vida é uma missão, na qual plantamos algumas ilusões e colhemos dores. Eu, naturalmente, desafio a morte a cada dia que vivo, desde o início da gestação. O corpo é apenas a morada efêmera de um espírito intocável pelas almas sebosas. Mas ai daquele que um dia desencarnar um espírito injustamente, mesmo que seja o seu. Esse ser que se põe como juiz do destino do próximo – ou de si - não é um instrumento do Criador, mas um ser que lhe é adversário. Se eliminar o outro desse plano, injustamente, é um ato ímpio o que não será eliminar a si próprio? Não há justiça nesse propósito. Nele não há fé, não há amor, não há esperança, não há virtude, não há proveito, não há honra.

Alberto Magalhães

domingo, 20 de março de 2011

Deus

De repente tudo parece ser ilusão, fantasia. Família, amigos, amor, ódio, honra, dever de ofício, sonhos, ideais, corpo, vida, morte. Tudo o que de profundo se relaciona com os tais passa a aparentar ser fantasia da mente e se desfará como a neblina ao amanhecer. Deus, esse ser tão magnífico e, por vezes, distante, inalcançável, é a verdade que nunca se apaga e uma chama que não se extingue dentro de mim, a me revelar cruamente para mim mesmo. Ultimamente mata-me aos poucos, sem me destruir. Confunde-me nos meus caminhos, me transtorna sem me enlouquecer. Consome-me sem me aniquilar. Revolve-me completamente, sem me tocar um dedo. Porque na minha omissão eu não mais aborreço os ímpios. Ainda assim Ele me ampara e me protege das forças ocultas. Embora me subverta contra mim mesmo, é quem dá sentido aos meus dias e me faz rir dos poderosos. Por vezes transborda-me de profunda dor ou imenso prazer...       

Alberto Magalhães
  
                                                     

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O corpo e as sombras

Uma sombra estava bem próxima, ao meu redor. Discreta, sutil, quase imperceptível. Ela não me apaziguava, nem me transtornava. A não ser em momentos de convulsão emocional. Nesse momento me sublevava. Ela não me guiava, mas sempre me acompanhava por mais que eu não quisesse e a desprezasse. 

Na paz, na espiritualidade ela sumia. Na vida mundana ela sempre aparecia. Ela não procurava me aniquilar, mas me subverter, manipular e dominar o que afinal é a mesma coisa. Eu a ingeria alma a dentro na cerveja gelada, na fumaça morna, no sexo profano, na futilidade mental, na mágoa adormecida, na maldade perpetrada.

As sombras se conhecem  e se comunicam, mas não conhecem os humildes de espírito. Não os incomoda. Antes, são por eles anuladas. Essas sombras estão por ai a gozar privilégios e espaços cada vez maiores no mundo materialista, individualista, egoísta, egocêntrico.

Sombras que minam o amor verdadeiro, construtor, redentor, pacifista. As sombras riem dos homens, das suas vulnerabilidades, das suas aspirações, das suas tragédias, das suas dores e da sua infelicidade. E nos enchemos de sombras atraentes, ofuscando o sol primitivo dos nossos corações.

Alberto Magalhães

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Dois contos


Uma figura folclórica

Seu Zé era uma figura folclórica da minha infância. Ele morava na rua das casas, número na porta, como dizia. Ele era ranzinza e irreverente. Sempre falava, principiando qualquer conversa: “o negócio é o seguinte: dezenove não é vinte, mas tem um porém: noventa não é cem.” Ele conversava muito e quando alguém lhe fazia alguma pergunta que não sabia responder, dizia: “acredito que sim, creio que não, porém não sei”, encerrando o assunto. Do seu neto, ele dizia: “sapeca? Aquele já pintou o sete, riscou o oito, desenhou o nove e apagou o dez.” Se o menino, suado, pulava em seu colo ele logo dizia: “vá tomar banho que você tá com cheiro de cachorro novo.” Ao filho, aconselhou no dia do casamento: “todo dia quando chegar em casa, dê uma surra na mulher.” Diante da surpresa do seu filho, ele lhe esclareceu: “você poderá não saber porque está batendo, mas ela saberá porque está apanhando.” Ainda lhe disse mais: “a mulher tem dois direitos: o 1º é saber que não tem direitos nenhum e o 2º é não abusar dos direitos que tem.”  Mas nada  disso era de verdade, ele não era mau, era apenas um gozador. Ele disse que, na mocidade, esteve se formando em engenharia até que o seu patrão  vendeu o engenho. Sobre um vizinho que, depois de sofrer um acidente automobilístico, passou a ter uma perna mais curta que a outra, ele saiu com essa: “quando Deus aleija é pra não perder de vista.” Todo final de tarde ele ia na bodega do seu Manoel, tomar um cafezinho, fumar um charuto ou cigarro de palha e jogar conversa fora. Pra irritar seu Joaquim, um senhor preto e seu quase desafeto, assim ele pedia café todos os dias: “ me dê um preto, passado no saco.” No dia em que o café não estava “no ponto”, ele comentava: ”tá com gosto de cuscuz de cinza.” Quando ele chegava na rodinha dos aposentados, sempre gracejava: “Soldado, sem farda, sem companhia, chegando da putaria, se apresentando pra trabalhar.” E quando ele terminava de contar uma fofoca, completava: “é o mundo todo pra falar de mim e eu sozinho pra falar do mundo todo.” Quando ele se despedia de nós, mais jovens, sempre dizia: “quando for dormir, feche os olhos. Quando acordar, abra!” A sua ausência casual era logo sentida por todos. Realmente era uma grande figura o seu Zé.

Alberto Magalhães

O cabrito roubado

Naquele aprisco só havia um cabrito e uma ladra o roubou. Ela não era uma ladra comum e aquele não era um cabrito qualquer. Ele havia gerado uns cabritinhos e neles depositava os seus cuidados. Os conduzia aos campos e aos alimentos que lhes sustentavam com saúde. Também lhes oferecia carinho e atenção. Ele era o guardião daquele aprisco. Com ele por perto tudo parecia menos inóspito e inseguro. Ali também havia uma cabrita que o auxiliava e compartilhava de tudo que o cabrito fazia. No dia em que a ladra chegou ela não chegou com estardalhaço. Nem com agressividade ou coação. Não! Ela chegou de mansinho, com um sorriso no rosto e braços abertos para abrigar qualquer desprevenido. E aquele cabrito se maravilhou de que houvesse mais um abraço para o abrigar nas suas fantasias. E logo se acostumou com aquele novo abraço que trazia um perfume suave e sedutor. Aquela ladra não roubava pertences ela roubava apenas corações, mas com tudo o que havia nele. Um dia ele a seguiu, não se sabe ainda pra onde, e não mais voltou.
Agora, sem ele, aquele lugar não parecia mais um aconchegante aprisco, um lar, mas apenas, um simples abrigo. Todos os dias a cabrita se fazia várias perguntas. Por onde andaria, agora, aquele cabrito sonhador? O que estaria fazendo? Estaria feliz? O seu coração estaria sentindo falta daqueles campos verdosos e pacíficos e dos que lhe amavam? Se importaria ele em saber como estariam aqueles que ele havia deixado? Estaria abrigado do frio e da chuva, como aqui estivera, cercado de cuidados? Como estaria aquele cabrito que fora daquele aprisco, um dia? 

Alberto Magalhães

domingo, 26 de dezembro de 2010

UM ESTRANHO AMOR

Ele era um cara especial para quem o conhecia. Eu tive o prazer de ter a sua amizade. Ele tinha uma dedicada esposa e um casal de filhos e era por eles amado. E os amava profundamente. A sua morte nos deixou uma triste saudade. Um infarto o levou de nós. Um coração como o dele deveria viver para sempre. Ele era natural de São Paulo e viveu mais de vinte anos aqui em Sergipe, desde os seus trinta e poucos anos. No jardim da sua casa nós bebíamos cerveja brahma e conversávamos sobre todas as coisas do mundo, enquanto os cantores da MPB cantavam pra gente. Ele revelava humanidade em todos os seus gestos.

Eu o velei e o enterrei com lágrimas nos olhos e aquela sensação de uma grande perda, que só sentimos quando as pessoas que realmente temos se vão. A sua esposa e filhos ficaram inconsoláveis. Algum tempo depois da sua morte ela me confidenciou que ele não podia gerar filhos. Ela me disse que, apesar disso, o seu sonho era ser pai. Mas eu mesmo a tinha visto grávida ao lado dele por duas vezes e até acompanhei os passos das duas crianças – menina e menino - cuidadas por ambos. Os filhos ela havia gerado com outra pessoa e os ofertara a ele fingindo para o outro que eram do seu marido. Eram de um amante que ela visitava esporadicamente com o intuito de procriar, com a permissão dele.  Ele não queria adotar bebês, preferia que os filhos fossem  a extensão dela. Ele não queria tirar dela esse direito. O  pai amoroso seria ele.  E foi. Ela também revelou a verdade aos filhos. Pouco tempo depois do funeral deixaram a nossa terra, onde  ele havia escolhido para viver até a sua morte. Recentemente ela faleceu, em telefonema um dos seus filhos me disse que foi de tristeza, que nunca a deixou.

Quem conheceu o casal percebia que um amor mútuo os unia. Um profundo, especial e estranho amor. 

Alberto Magalhães

domingo, 19 de dezembro de 2010

Neste natal,

Agradeça a Deus por cada coisa que você tem, antes de ficar insatisfeito pelo que ainda não adquiriu;

Retribua com alegria aos que estão sempre ao seu lado, antes de maldizer aqueles que te ignoram ou abandonaram;

Calidamente se apaixone pela vida, suavemente namore com ela, dance com ela gentilmente na lua que ilumina a noite, antes do silêncio inevitável;

("Se você não tem virtudes, assuma alguma". Shakespeare)

Feliz natal! Ano novo de paz.       

Alberto Magalhães

sábado, 11 de dezembro de 2010

Carta a um amigo

Os dias são mais tristes que alegres. As estradas são longas para se alcançar os objetivos e um vento qualquer, às vezes, nos tira o que arduamente alcançamos. Também as coisas e as pessoas  que conquistamos nunca são exatamente como pensamos ou  queremos. Talvez sejamos muito exigentes ou perfeccionistas com relação a algumas coisas. As promessas que no mundo surgem não são completamente reais, mas têm o condão da inspiração de nos fazer viver mais intensamente a vida.

Quando se pensa que se está chegando às estrelas da realização e elas se dispersam feito nuvens de verão, não se deve definitivamente se abater. As quedas não não são o fim, mas o encerramento de um caminho e a oportunidade de um recomeço ou, talvez, a reprovação de uma matéria da escola chamada mundo com direito a recuperação. O conjunto deve importar mais que a unidade, seja a que for. Devemos alimentar esse princípio.

A vida é mais esperança que felicidade, para ser o incentivo da caminhada. Pense nisso.

Alberto Magalhães

domingo, 17 de outubro de 2010

O mundo não está melhor

Diante de notícias ruins à nossa volta sempre ouvimos comentários que as coisas estão piorando. Na verdade o mundo não muda pra pior nem pra melhor, fica no meio. Ele caminha nas duas direções. Oscila tempos mais para um lado, tempos mais para o outro. Exemplos de períodos piores foram os das grandes guerras, como os 1º e 2º conflitos mundiais e os de outros anteriormente de igual magnitude para a época que não são computadas, dessa forma, pela história moderna. Invasões de pequenas nações, transformadas em colônias, por outras mais poderosas. Também as grandes epidemias que a saúde, de vários países, sofreu. Crises econômicas e políticas que implantaram, quase ao mesmo tempo, ditaduras governamentais pelo mundo. 

Na outra vertente estão as descobertas de vacinas imunizantes, a libertação de nações do jugo de outras, a democratização de países dominados por militares, o avanço da informática e tecnologia, a ampliação dos direitos humanos no mundo... No entanto, quando menos se espera, algo de ruim surge para a humanidade, como as guerras, por exemplo, sempre originadas por interesses políticos ou econômicos que, ao final, são a mesma coisa. Os americanos saíram do seu continente e - à pretexto de combater  o narcotráfico - instalaram uma base militar na Amazônia e estão se apossando da parte brasileira com seus dólares manchados de sangue oriental.

O mundo caminhou para melhor e para pior, desfruta de uma cultura cíclica de melhora em umas áreas e piora em outras, alternando evolução e atraso. Exemplo disso, atualmente, são o avanço incontido das drogas entre a juventude, da AIDS, a eminência de esgotamento dos recursos naturais e da dilapidação da natureza, a crise familiar, o aumento da criminalidade urbana...

A educação, a cultura, as artes, a igreja, os movimentos sociais progressistas sempre tiveram a capacidade de avivar a consciência individual e coletiva para a preservação dos valores fundamentais da pessoa humana. Sem esses elementos racional espirituais estimuladores da boa consciência humana os homens seriam seres puramente egoístas e perversos. Eles também sofrem essa oscilação cíclica. Esses elementos, associados a um inconsciente e essencial instinto de sobrevivência em grupo, contribuem para a boa convivência da espécie humana. 

O mundo sempre estará melhor e pior para o homem, graças a ele próprio.

Alberto Magalhães

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O culto ao efêmero

Vivemos num bom tempo. Hoje tudo é mais fácil. No entanto tudo é efêmero, corrido, descartável. Não é por culpa da internet, ao contrário, ela é um produto do homem moderno: múltiplo, insatisfeito, superficial. Não mais se busca, como antigamente, o herói mitológico, ideal, paradigmático. Morreram Martin Luther King, Ghandi, Tiradentes.... mas agora não só fisicamente, morreram definitivamente.  Nessa geração Coca-Cola, aficionada pela mídia que canaliza o estrelato para qualquer um – nos realitys shows da vida -, pela TV, pela personificação – às vezes fascista -, nos twiter, blogs, sites, colunas sociais. Hoje se anula – inconscientemente ou convenientemente -, os grandes nomes de outrora. Para que cultuarmos exemplos de um só homem para intermináveis gerações, se o supérfluo nos domina e o efêmero nos fascina? Eles agora morreram ideologicamente, que é o último reduto da existência de um defunto: o imaginário popular. As elites nos ensinam a amar só o dinheiro, a vanglória e o poder; na verdade, a superioridade vã que esses atributos trazem. Mesmo que tão  ilusória e passageira. Todo homem é dúvidas, fragilidade, carne e finitude sempre deprimente. Oh! Glória vazia! Não existe mais a honra, diria o pensador. Ela tornou-se algo ridículo, desnecessário. A palavra empenhada– outrora digna, hoje é ferramenta de embuste e de trapaça, tornada, aos ouvintes, produto  sem o mínimo valor.

O pensamento é hoje utopia dos idealistas. O pensador, o escritor, o poeta são seres a caminho da extinção, como a fauna e a flora. Vivemos noutros tempos. As músicas e brincadeiras de roda foram substituídos pela TV, games e passatempos virtuais no PC. A literatura e a poesia, pelas imagens sensuais de fotos e vídeos. A profundidade, pelo superficial e imediato. A mulher deixou de ser apenas namorada, profissional, esposa e mãe para ser modelo corporal - produto da cultura sensual -, permanentemente. A única via possível  para a mulher se realizar é a beleza física? A lua e a noite estrelada, o amor eterno, o casamento deu lugar aos relacionamentos curtos, de temporada, em busca de vantagem material ou de satisfação da libido. Os filhos que antes eram os frutos do amor, hoje são a sobra do sexo.

As cidades alimentam a proliferação das drogas destruidoras da juventude, a criminalidade crescente, a corrupção incontrolável. Sacrificou-se o respeito ao semelhante pelo materialismo, pela ambição desmedida. O altruísmo da fé, pelo negócio da fé. Os novos, querendo fazer de seus pais marionetes das suas vontades e, cedo, se ofertando às vontades libidinosas dos outros jovens e dos adultos. 

Vivemos o tempo do sucesso social ou do fracasso, não mais do aprendizado humano, nada mais conta. É o tempo do vale tudo, da indecência, da vantagem. As ideologias sucumbiram ante o capital, o individualismo e a unanimidade pragmática burra. Não temos mais líderes respeitados em nenhum segmento. Estamos perdendo a nossa identidade, o nosso desenho pessoal porque perdemos o senso da verdadeira dignidade e dever social.

A espiritualidade, a filosofia, a literatura, as artes, a música estão definhando, pálidas e distantes do coração.

Alberto Magalhães

sábado, 2 de outubro de 2010

Carta a uma amor que se perdeu

O final de um namoro é sempre triste, pelo amor que se foi, e sempre bonito pelas lembranças que ficam. Pena que nem sempre podemos dizer isso do nosso.
E o que dizer de um namoro bloqueado por ordens superiores à razão, vindas de um passado marcado por fantasmas?
E o que dizer de um amor que por, culpa desses fantasmas, permaneceu preso, enclausurado dentro do peito, como se houvesse o temor de deixá-lo escapulir e, assim, tomar conta de tudo?
Posso chamar a isso de covardia? Não, nessa carta não cabem críticas. Afinal,  essa é uma carta de amor e, apesar de tudo, ele  ainda está vivo. Tão vivo que neste exato momento percorre todo o meu corpo e, aquecido, imagino você sorrindo. Nunca lhe disse quanto o seu sorriso é bonito? E por ser raro era, por mim, não só visto como sentido?
Nunca lhe disse que o seu ar de menina  sempre me comovia ao ponto de querer um beijo, cada vez? Em cada sorriso feliz, ou em cada olhar triste? É, não lhe disse tanta coisa! Nem eu podia revelar. Havia aquela parede sempre presente entre nós e o futuro. E, até então, eu não sabia que ela nos separaria definitivamente.
Mágoa...? Enorme! Aquela que se arrasta pegajosa pelas entranhas, inundando todos os cantos do ser. Mas não exatamente de você. Estou agora como que diante de uma porta que se fechou à minha frente, num lugar deserto, sem a chave para abrí-la. Estou sentado ao lado de mim mesmo  como se tivesse contemplando outra pessoa. Essa pessoa que mergulhou de cabeça e corpo num sentimento tão grande, numa alegria invasiva e que agora nem chorar sabe.
Mesmo assim uma latente dor  ataca impiedosamente quando se percebe que a realidade não é reversível. E a única realidade que vale é aquela que foi contada. Que ironia! Já pensou que a realidade que você vive pode ser uma mentira, mas o que importa é que seja a verdade de todos? E a sua verdade quando viverá? Quando deixará de ser o conveniente para ser o eu pleno?
Um dia eu escrevi: “Tornei o seu mundo meu e cativarei todos os nossos maus momentos com flores, para que eles escolham como moradia a minha pessoa e não a sua. Mas isso não foi possível.
Em nome do amor que eu sinto por você, só me resta torcer para que um dia, "por coincidência", o que for decidido faça par com o seu coração.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ambíguo

Sou mau/calculista quando dou a mão tola/estratégica. Sou bom/realista quando viro as costas conscientemente/sinceramente. Quando uso as palavras rebuscadas/padronizadas sou vão/mentiroso. Profundo quando invento/transformo. Neurótico, quando estou lúcido/consciente. Artificial na alegria, confuso na serenidade, verdadeiro nas fantasias, disperso na serenidade. Sou um vento que nasceu da pedra, de pedra que se originou da água. Esboço dourado/desenho realinhado. Código nunca totalmente decifrado. Líquido que forma um corpo sólido, que nasceu de um pingo/minúsculo. Na minha vida, duas vezes nasci: nas três noites gêmeas. Das minhas três mortes, duas não esqueci: a solidão da existência.


Alberto Magalhães

sábado, 31 de julho de 2010

Nesta tarde

Uma chuva tímida e insistente caía lá fora, suficiente para fazer eu não sair de casa, ir ver tv, cochilar um pouco - fazendo-me perder o final do filme antigo que assistia - e depois ir me sentar em frente a esse instrumento que acessa o mundo virtual e nos permite guardar as nossas reminiscências, lembrando do passado e imaginando o futuro...

A única coisa realmente nossa é o pensamento. Uma névoa que se forma projetando um longo filme em que temos sido ator e que agora assistimos passivamente, anestesiados pela realidade imutável do que vemos, entre tantas cenas que gostaríamos de reeditar. Não dá mais, as cenas se desvaneceram no tempo mas, infelizmente, ficaram congeladas no imaginário de muitos outros atores que contracenaram. Reeditá-los é tarefa impossível.

E perceber que os papéis nos ofertados eram de coadjuvantes, com falas e gestos convenientes a todos os outros personagens que interagiam naquele set, e os papéis que por nós, depois, foram escolhidos – incorporados - eram de personagens que poderiam ser considerados originais e irreverentes, que improvisam e, às vezes, incomodam, destoando do conjunto enfadonho mas afinado. 

E descobrir, serenamente – embora com um desgosto profundo, que tudo já vivido foi incompleto, quase vão. Construído em cima de bases falsas – as nossas verdades não se tornam a verdade do mundo, tudo apenas fachada do que poderia ter sido completo, mas que por falta de dedicação – o simples gesto de se dar por inteiro, não permitiu a si mesmo completar.

Saber que se tem muito pouco tempo nesse mesmo set não incentiva a uma nova empreitada para fazer as coisas com uma nova cor. Ou se refazer simplesmente todas as coisas. Os problemas do corpo físico, a realidade biológica transcende todas as vontades e impera tiranamente no mundo material. O mundo virtual permite apenas um esboço, um ensaio da vitória da razão sobre as limitações e fraquezas humanas.

Alberto Magalhães

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Essências

A casa estava silenciosa naquele finalzinho de tarde, só havia uma lâmpada acesa na sala principal iluminando fracamente o quarto onde eu estava. Os lençóis da cama onde eu havia deitado estavam frescos, proveniente do vento frio que entrava pela janela lateral aberta. Ela, quieta, me aquecia com o seu abraço suave. A TV que, à minha frente, estava desligada não incomodava a penumbra e a paz daquele silêncio. Nenhum som ecoava pelas paredes do recinto. Pela porta aberta eu observava parte da sala e do corredor que dava acesso ao interior da casa. A TV naquela circunstância deixara de ser o eletrodoméstico centro das atenções e tornava-se apenas um móvel imóvel, escuro, sem utilidade a não ser a de revelar que ao apagar-se o palco midiático, sonoro, ilusionista, fazia emergirem da escuridão e “se apresentarem” os outros móveis ocultados na rotina extenuante dos dias passados; as paredes, portas, quadros, objetos que todos os dias me acolhiam e se tornavam um porto seguro. As presenças, que andavam, brincavam, sorriam, comiam, pegavam nas coisas, estavam – todas - sem som. Não olhavam pra mim, não me notavam, não me viam. E eu ali, pertinho, contemplando-os com um espanto nos meus olhos, extasiado de alegria por enxergá-los e tristeza por não podermos interagir. Fechei os olhos, o silêncio ficou muito denso. Calmamente abri os olhos. Além da companheira que já dormia, dos móveis distribuídos pelos cômodos da casa e um gato preguiçoso que dormia no canto do sofá, não havia presença física na casa, só a essência deixada pelos meus filhos que a ocuparam até o dia anterior, antes de viajarem.

Janeiro de 2005

Alberto Magalhães

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Pensei

Estive pensando: o que, afinal, significa a fé para as pessoas?


“...Olhe para o problema, ria dele, escarneça dele, esmague-o... Deus é infinitamente maior que toda angústia... mas infelizmente... passam-se os anos, e como demora essa angústia passar...” (Kleiton, em “87#” www.cantigasdotempo.blogspot.com)


A fé é algo que não se dá de presente, é algo tão relativo e tão absoluto, tão sutil e tão arrebatador, tão sublime e tão absurdo, algo que se fundamenta no futuro e preenche o vazio do presente, vertigem do lúcido, ilusão que cura o louco. Essência que flui no tempo e no espaço e nasceu no coração de Deus. Cegos são os olhos que não a vislumbram. De pedra é o coração que não a sente. Semimorto é o espírito que não a ama, o pintor que não a pinta, o escritor que não a descreve, o ator que não a encena, o viciado que não a deseja, o intelectual que não a questiona, o perverso que não a busca. A alma simples, no oculto, a apreende e a revela aos outros. A fé é algo pela qual, ardentemente, apenas se espera...


Alberto Magalhães

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Aprender

(Copiando Veronica Shoffstall, que copiava William Shakespeare)

Entre tantas coisas na vida eu aprendi a trocar as fraldas de meus filhos (foram seis), a fazer, de forma diferente e deliciosa, o cuscuz especial, o ovo temperado e o cachorro quente, a fingir que estou chateado com a vida pra receber algum afago quando estou meio necessitado, aprendi a ceder e fazer alguma concessão, quando algo maior está em jogo, aprendi a me enquadrar quando as coisas estão difíceis, aprendi a dizer não e sim, a preencher – nela - mais a alma que o corpo, para então eu receber mais no corpo e assim agradar minha alma, aprendi a incomodar a quem os “outros” não ousam incomodar (como são ridículos os puxa sacos), aprendi que, às vezes, o amigo que você conquistou hoje será o inimigo de amanhã ou vice-versa (porque o seu antigo desafeto torna-se o inimigo de seu inimigo). Aprendi que o grito quase mudo dos comuns ecoa em algum lugar, em algum coração relevante que foi injustiçado um dia e gera fruto, que as letras dos papéis – da bíblia, das enciclopédias, dos tratados, das cartas dos enamorados - salvariam o mundo da desgraça se fosse isso que quisessem, que só se dá valor a paz quando se prenuncia a guerra, aprendi que tem gente que traz menos alegria que tristeza, que realmente “as virtudes se perdem no interesse como o rio se perde no mar” (François La Rochefoucauld), que as nossas virtudes não absolvem os nossos defeitos, que nos muitos interesses se gera a dor, que devemos dar mais atenção aos que estão perto da gente, que o nosso primeiro e maior inimigo reside dentro de nós, que é melhor ouvir que falar - mas isso nem sempre seguimos, que o conhecimento é o caminho para a auto libertação de tudo que nos prende à involução.

Alberto Magalhães

sábado, 26 de junho de 2010

Anjos e demônios

Numa das minhas leituras entendi que nas pessoas existem as mesmas necessidades, fraquezas, dúvidas, aspirações (no sentido geral) e dores. Por isso somos chamados de semelhantes. E entendi que, para eles, podemos ser anjos ou demônios. Anjos, quando estendemos a mão, quando ofertamos um sorriso, quando exortamos, instruímos ou ensinamos, como a segurar a sua mão para que não tropece em negras pedras, quando concedemos um apoio logístico ou moral, quando eventualmente prestamos amparo psicológico ou assistência material, quando, em verdade de gestos e ações, dizemos: "você não é o único a estar passando por isso, e o que é melhor: isso tudo vai passar, porque tudo passa na vida e depois o faz melhor e mais forte." Anjos, quando perdoamos os atos indesejáveis - não digo os perversos - de terceiros, ou simplesmente os relegamos ao espaço neutro do esquecimento, os reduzimos à cota de falhas permitidas a todos. Porque tudo o que constrói, evolui, regenera, alegra, ilumina é de Deus.

Somos verdadeiros demônios, aqueles que ofuscam mentes, conturbam espíritos, afligem almas, flagelam vidas, produzem o mal real, latente ou visível - às vezes por muito tempo, quando desrespeitamos, maltratamos, humilhamos, perseguimos, injustiçamos, negamos o que é devido, o que é de direito não negar, ou quando desprezamos a quem, um dia, nos acolheu (sem segundas intenções).

Se, na dimensão espiritual, existem anjos e demônios a influenciar a mente das pessoas, são os demônios os parceiros dos que invejam, dos que odeiam, dos que se consideram superiores aos seus semelhantes, ou acima do bem e do mal. Na verdade nessa fusão do homem rancoroso com o ser espiritual extraviado do Sumo Amor, negadores da verdade universal, é gerado o demônio real. Para a infelicidade de todos.

( Imagem: internet)


Alberto Magalhaes

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Libelo do amor não correspondido

"Era um garoto que amava os Beatles" e Regina Duarte (a namoradinha do Brasil). Foi criado por um pai ausente e uma mãe não afetuosa - ela tinha mais outros filhos para criar - e era uma menino muito carente. Retraído e introspectivo desenvolveu uma personalidade com baixa autoestima, insegura e arredia.
Com essas características ele chegou à adolescência sem saber interagir satisfatoriamente com os outros do seu meio, principalmente com as garotas. Quando ele se interessava por alguma e, com muita limitação se aproximava dela, não conseguia construir laços afetivos e era, nesse sentido, rejeitado. Essa experiência negativa atingiu de forma contundente a sua personalidade, já fragilizada, deixando uma marca profunda na sua alma.
Com o passar do tempo, já na fase adulta, ele conseguiu superar as suas dificuldades psicológicas no campo da sociabilidade inserindo nesse bojo a afetividade e a natural arte da sedução, após anos se preparando para isso. Para tanto observou, acompanhou os relacionamentos amorosos das pessoas próximas e construiu uma ideia própria a respeito das necessidades humanas nessa seara e das técnicas da conquista do amor e passou a praticá-las. No entanto, o que fluía de si não era algo inerente à sua pessoa, era uma habilidade adquirida, uma especialização na arte da conquista - nascida da necessidade de ser correspondido na sua busca de amor - e não uma peculiaridade natural, intrínseca dele.
Com essa nova disposição e preparo de espírito ele passou a ter acesso ao coração das pessoas. Agora ele sabia em quem chegar, quando e como. Desenvolveu, pelo lado inverso, a arte da sedução e da conquista. Fazia o que as mulheres esperavam que ele fizesse, dizia o que elas precisavam ouvir e recheava os contatos com alguns recursos culturais que dispunha e que eram agradáveis às pessoas comuns. Mas tudo fazia com convicção e firmeza. Para tanto envolvia-se plenamente naquilo que vivia ao ponto de tornar real - pelo menos por algum tempo - tudo o que se exigia no relacionamento que se iniciava. Assim, irremediavelmente e completamente, as seduzia.
Porém um lado negro se desenvolveu à sombra disso. O passado iria cobrar a sua parte na história. O coração que ele seduzia passou a ser não simplesmente a conquista do amor, era também a conquista de um território antes intransponível, desejado até a linha do ódio, era uma batalha vencida contra o inimigo que confundia-se entre a sua própria deficiência e a pessoa desejada. Tornando-a, de certa forma, o inimigo do seu ego a ser dominado para curar a sua frustração, aliviar o seu coração ferido e satisfazer os seus desejos afetivos e sexuais. Isso tornou-se um vício.
Para essas pessoas ele ia se revelando uma personalidade enigmática: oscilava entre carinhoso e arrogante, romântico e possessivo, protetor (controlador) e indiferente, apaixonado e aparentemente infiel... O que, de alguma forma, as atraia mais ainda visto que ele alcançava e preenchia o coração de quem estava carente de alguém que não fosse superficial afetivamente, o que definitivamente ele não era, vez que era impregnado de paixões antigas não correspondidas que precisava vivê-las ( e inconscientemente as revivia como forma de libertação espiritual) no espírito e no corpo de quem quer que fosse, que lhe atraísse.
Para ele a aproximação, sedução e a conquista despertava em seu ser sentimentos desencontrados: hora a realização de um desejo natural e saudável, a superação da sua antiga deficiência, hora apenas a subjugação daquilo que se apresentava um obstáculo ao seu sentimento de ser aceito e querido, hora a revanche revigoradora de ter o domínio da arte de seduzir a quem lhe interessava, como alvo daquele jogo da sedução e conquista, e que antes lhe evitava. O prazer que lhe causava uma conquista, aumentava quando em seguida ele a tornava substituível por outra que começava a prosperar. A realização de uma conquista era o combustível que o animava a prosseguir em nova conquista. Primeiro porque fazia daquele alvo, antes inalcançável, um objeto inferior a si, algo subserviente aos seus caprichos, quando antes tinha sido o oposto. Também não queria correr o risco de voltar a ser rejeitado ao se apegar em demasia.
O "doce sofrimento", como dizia, de quem amava alguém que lhe desejou e o abandonou era muito menor que o de alguém que não chegou a ser desejado por quem tanto desejou. Para ele quem teve um amor pra viver e sofrer era um feliz vitorioso sobre quem não viveu amor nenhum. E assim ele seguiu amando, sendo amado e depois negando esse amor em busca de outros. Até encontrar um que consiga lhe redimir e traga a paz, não paixão. Essa o adoeceu.


Alberto Magalhães

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A letra dói

(Ou A letra que faz doer)

Não vou mais escrever. Pelo menos por algum tempo, que espero seja longo. Até o dia em que eu ficar cheio de novo do instintivo, carnal, comum, dos vícios mundanos, da mediocridade minha e dos meus semelhantes que me mostram o quanto eu sou pequeno e ridículo. Alguém me disse hoje: você nos manda mensagens demais, incomoda, abusa da nossa mente, escreve muitas bobagens, devia “dar um tempo” de letras... Na hora eu ri, de tão engraçado que eu achei. Não, na verdade a pessoa que é minha amiga e colega de trabalho – a sinceridade é uma grande aliada e nos é mais útil que o fingimento ou a mentira – não disse nada disso. Falou-me com uma palavra educada e comedida, mas para bom entendedor meia palavra basta, um pingo é uma letra. Então logo que dobrei a primeira esquina me veio esse desejo de não ter o desejo de me expressar para os outros, dividindo algumas coisas que passei a ver como essenciais para nós que já estamos mais perto do fim que do começo, mais perto do ocaso que da gênese da vida. Não mais andarei catando tolices, juntando frases vãs, não mais comentarei da frivolidade das coisas que permeiam a nossa vida ou das virtudes e sentimentos que deveriam nos motivar, nem dos pensamentos para nos moldar. Pronto! Lá vou eu com essa maldita mania adquirida de falar do que as pessoas não querem ouvir: da frivolidade do que nos move, nos incita e nos domina diariamente. Quando fiquei cheio de mim passei a encher o saco dos outros. Já nos bastam o pão e o circo, para quê então as abstrações e reminiscências de filósofos doidos, de escritores desocupados, de pensadores sedentários e quase “brochas”, de pregadores alienados do moderno contexto social-político-capitalista-vanguardista-exotérico-sincretista, etc. etc. O bom mesmo é dinheiro. Com ele a gente pode tudo. Com ele a gente compra garrafas de bebidas pra encher a cara até ficar grogue e adoecer o indolente fígado, compra cocaína pra cheirar até sangrar o nariz, paga enfermeiros pra fazer aborto nas nossas filhas adolescentes, paga a um detetive pra espionar a nossa mulher (ou marido) suspeita(o), paga ao contador para que soneguemos o imposto devido, corrompe os interessados em nos livrar das contravenções e infrações, compra testemunhas falsas, paga o carro, combustível, motel e o cachê de garotas e garotos de "programas" viçosos e vistosos, leva pra casa filmes pornográficos que as crianças assistem quando damos as costas, faz festas pra regalar os “amigos” de plantão... Que maravilha o dinheiro, vou me importar só com isso agora. Com ele o mundo fica mais sedutor.

Para quê os textos que nos fazem pensar, questionar, incomodar o nosso interior e comprometer o nosso status? Não vou escrever, eu prometo! Até o vazio voltar a ser o meu companheiro insuportável.


Alberto Magalhães