domingo, 26 de dezembro de 2010

UM ESTRANHO AMOR


Ele era um cara especial para quem o conhecia. Eu tive o prazer de ter a sua amizade. Ele tinha uma dedicada esposa e um casal de filhos e era por eles amado. E os amava profundamente. A sua morte nos deixou uma triste saudade. Um infarto o levou de nós. Um coração como o dele deveria viver para sempre. Ele era natural de São Paulo e viveu mais de vinte anos aqui em Sergipe, desde os seus trinta e poucos anos. No jardim da sua casa nós bebíamos cerveja brahma e conversávamos sobre todas as coisas do mundo, enquanto os cantores da MPB cantavam pra gente. Ele revelava humanidade em todos os seus gestos.

Eu o velei e o enterrei com lágrimas nos olhos e aquela sensação de uma grande perda, que só sentimos quando as pessoas que realmente temos se vão. A sua esposa e filhos ficaram inconsoláveis. Algum tempo depois da sua morte ela me confidenciou que ele não podia gerar filhos. Ela me disse que, apesar disso, o seu sonho era ser pai. Mas eu mesmo a tinha visto grávida ao lado dele por duas vezes e até acompanhei os passos das duas crianças – menina e menino - cuidadas por ambos. Os filhos ela havia gerado com outra pessoa e os ofertara a ele fingindo para o outro que eram do seu marido. Eram de um amante que ela visitava esporadicamente com o intuito de procriar, com a permissão dele.  Ele não queria adotar bebês, preferia que os filhos fossem  a extensão dela. Ele não queria tirar dela esse direito. O  pai amoroso seria ele.  E foi. Ela também revelou a verdade aos filhos. Pouco tempo depois do funeral deixaram a nossa terra, onde  ele havia escolhido para viver até a sua morte. Recentemente ela faleceu, em telefonema um dos seus filhos me disse que foi de tristeza, que nunca a deixou.

Quem conheceu o casal percebia que um amor mútuo os unia. Um profundo, especial e estranho amor. 

Alberto Magalhães

domingo, 19 de dezembro de 2010

Neste natal,

Agradeça a Deus por cada coisa que você tem, antes de ficar insatisfeito pelo que ainda não adquiriu;

Retribua com alegria aos que estão sempre ao seu lado, antes de maldizer aqueles que te ignoram ou abandonaram;

Calidamente se apaixone pela vida, suavemente namore com ela, dance com ela gentilmente na lua que ilumina a noite, antes do silêncio inevitável;

("Se você não tem virtudes, assuma alguma". Shakespeare)

Feliz natal! Ano novo de paz.       

Alberto Magalhães

sábado, 11 de dezembro de 2010

Carta a um amigo


Os dias são mais tristes que alegres. As estradas são longas para se alcançar os objetivos e um vento qualquer, às vezes, nos tira o que arduamente alcançamos. Também as coisas e as pessoas  que conquistamos nunca são exatamente como pensamos ou  queremos. Talvez sejamos muito exigentes ou perfeccionistas com relação a algumas coisas. As promessas que no mundo surgem não são completamente reais, mas têm o condão da inspiração de nos fazer viver mais intensamente a vida.

Quando se pensa que se está chegando às estrelas da realização e elas se dispersam feito nuvens de verão, não se deve definitivamente se abater. A queda não é o fim, mas o encerramento de um caminho e a oportunidade de um recomeço ou, talvez, a reprovação de uma matéria da escola chamada mundo com direito a recuperação. O conjunto deve importar mais que a unidade, seja a que for. Devemos alimentar esse princípio.

A vida é mais esperança que felicidade, para ser o incentivo da caminhada. Pense nisso.

Alberto Magalhães

domingo, 17 de outubro de 2010

O mundo não está melhor


Diante de notícias ruins à nossa volta sempre ouvimos comentários que as coisas estão piorando. Na verdade o mundo não muda pra pior nem pra melhor, fica no meio. Ele caminha nas duas direções. Oscila tempos mais para um lado, tempos mais para o outro. Exemplos de períodos piores foram os das grandes guerras, como os 1º e 2º conflitos mundiais e os de outros anteriormente de igual magnitude para a época que não são computadas, dessa forma, pela história moderna. Invasões de pequenas nações, transformadas em colônias, por outras mais poderosas. Também as grandes epidemias que a saúde, de vários países, sofreu. Crises econômicas e políticas que implantaram, quase ao mesmo tempo, ditaduras governamentais pelo mundo. 

Na outra vertente estão as descobertas de vacinas imunizantes, a libertação de nações do jugo de outras, a democratização de países dominados por militares, o avanço da informática e tecnologia, a ampliação dos direitos humanos no mundo... No entanto, quando menos se espera, algo de ruim surge para a humanidade, como as guerras, por exemplo, sempre originadas por interesses políticos ou econômicos que, ao final, são a mesma coisa. Os americanos saíram do seu continente e - à pretexto de combater  o narcotráfico - instalaram uma base militar na Amazônia e estão se apossando da parte brasileira com seus dólares manchados de sangue oriental.

O mundo caminhou para melhor e para pior, desfruta de uma cultura cíclica de melhora em umas áreas e piora em outras, alternando evolução e atraso. Exemplo disso, atualmente, são o avanço incontido das drogas entre a juventude, da AIDS, a eminência de esgotamento dos recursos naturais e da dilapidação da natureza, a crise familiar, o aumento da criminalidade urbana...

A educação, a cultura, as artes, a igreja, os movimentos sociais progressistas sempre tiveram a capacidade de avivar a consciência individual e coletiva para a preservação dos valores fundamentais da pessoa humana. Sem esses elementos racional espirituais estimuladores da boa consciência humana os homens seriam seres puramente egoistas e perversos. Eles também sofrem essa oscilação cíclica. Esses elementos, associados a um inconsciente e essencial instinto de sobrevivência em grupo, contribuem para a boa convivência da espécie humana. 

O mundo sempre estará melhor e pior para o homem, graças a ele próprio.

Alberto Magalhães

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O culto ao efêmero

Vivemos num bom tempo. Hoje tudo é mais fácil. No entanto tudo é efêmero, corrido, descartável. Não é por culpa da internet, ao contrário, ela é um produto do homem moderno: múltiplo, insatisfeito, superficial. Não mais se busca, como antigamente, o herói mitológico, ideal, paradigmático. Morreram Martin Luther King, Ghandi, Jonh Lennon, Tiradentes.... mas agora não só fisicamente, morreram definitivamente.  Nessa geração coca-cola, aficcionada pela mídia que canaliza o estrelato para qualquer um – nos realitys shows da vida -, pela TV, pela personificação – às vezes fascista -, nos twiter, blogs, sites, colunas sociais. Hoje se anula – inconscientemente ou convenientemente -, os grandes nomes de outrora. Para que cultuarmos exemplos de um só homem para intermináveis gerações, se o supérfluo nos domina e o efêmero nos fascina? Eles agora morreram ideologicamente, que é o último reduto da existência de um defunto: o imaginário popular. As elites nos ensinam a amar só o dinheiro, a vanglória e o poder; na verdade, a superioridade vã que esses atributos trazem. Mesmo que tão  ilusória e passageira. Todo homem é dúvidas, fragilidade, carne e finitude sempre deprimente. Oh! Glória vazia! Não existe mais a honra, diria o pensador. Ela tornou-se algo ridículo, desnecessário. A palavra empenhada– outrora digna, hoje é ferramenta de embuste e de trapaça, tornada, aos ouvintes, produto  sem o mínimo valor.

O pensamento é hoje utopia dos idealistas. O pensador, o escritor, o poeta são seres a caminho da extinção, como a fauna e a flora. Vivemos noutros tempos. As músicas e brincadeiras de roda foram substituídos pela TV, games e passatempos virtuais no PC. A literatura e a poesia, pelas imagens sensuais de fotos e vídeos. A profundidade, pelo superficial e imediato. A mulher deixou de ser apenas namorada, profissional, esposa e mãe para ser modelo corporal - produto da cultura sensual -, permanentemente. A única via possível  para a mulher se realizar é a beleza física? A lua e a noite estrelada, o amor eterno, o casamento deu lugar aos relacionamentos curtos, de temporada, em busca de vantagem material ou de satisfação da libido. Os filhos que antes eram os frutos do amor, hoje são a sobra do sexo.

As cidades alimentam a proliferação das drogas destruidoras da juventude, a criminalidade crescente, a corrupção incontrolável. Sacrificou-se o respeito ao semelhante pelo materialismo, pela ambição desmedida. O altruismo da fé, pelo negócio da fé. Os novos, querendo fazer de seus pais marionetes das suas vontades e, cedo, se ofertando às vontades libidinosas dos outros jovens e dos adultos. 

Vivemos o tempo do sucesso social ou do fracasso, não mais do aprendizado humano, nada mais conta. É o tempo do vale tudo, da indecência, da vantagem. As ideologias sucumbiram ante o capital, o individualismo e a unanimidade pragmática burra. Não temos mais líderes respeitados em nenhum segmento. Estamos perdendo a nossa identidade, o nosso desenho pessoal porque perdemos o senso da verdadeira dignidade e dever social.

A espiritualidade, a filosofia, a literatura, as artes, a música estão definhando, pálidas e distantes do coração.

Alberto Magalhães

sábado, 2 de outubro de 2010

Carta a uma amor que se perdeu

O final de um namoro é sempre triste, pelo amor que se foi, e sempre bonito pelas lembranças que ficam. Pena que nem sempre podemos dizer isso do nosso.
E o que dizer de um namoro bloqueado por ordens superiores à razão, vindas de um passado marcado por fantasmas?
E o que dizer de um amor que por, culpa desses fantasmas, permaneceu preso, enclausurado dentro do peito, como se houvesse o temor de deixá-lo escapulir e, assim, tomar conta de tudo?
Posso chamar a isso de covardia? Não, nessa carta não cabem críticas. Afinal,  essa é uma carta de amor e, apesar de tudo, ele  ainda está vivo. Tão vivo que neste exato momento percorre todo o meu corpo e, aquecido, imagino você sorrindo. Nunca lhe disse quanto o seu sorriso é bonito? E por ser raro era, por mim, não só visto como sentido?
Nunca lhe disse que o seu ar de menina  sempre me comovia ao ponto de querer um beijo, cada vez? Em cada sorriso feliz, ou em cada olhar triste? É, não lhe disse tanta coisa! Nem eu podia revelar. Havia aquela parede sempre presente entre nós e o futuro. E, até então, eu não sabia que ela nos separaria definitivamente.
Mágoa...? Enorme! Aquela que se arrasta pegajosa pelas entranhas, inundando todos os cantos do ser. Mas não exatamente de você. Estou agora como que diante de uma porta que se fechou à minha frente, num lugar deserto, sem a chave para abrí-la. Estou sentado ao lado de mim mesmo  como se tivesse contemplando outra pessoa. Essa pessoa que mergulhou de cabeça e corpo num sentimento tão grande, numa alegria invasiva e que agora nem chorar sabe.
Mesmo assim uma latente dor  ataca impiedosamente quando se percebe que a realidade não é reversível. E a única realidade que vale é aquela que foi contada. Que ironia! Já pensou que a realidade que você vive pode ser uma mentira, mas o que importa é que seja a verdade de todos? E a sua verdade quando viverá? Quando deixará de ser o conveniente para ser o eu pleno?
Um dia eu escrevi: “Tornei o seu mundo meu e cativarei todos os nossos maus momentos com flores, para que eles escolham como moradia a minha pessoa e não a sua. Mas isso não foi possível.
Em nome do amor que eu sinto por você, só me resta torcer para que um dia, "por coincidência", o que for decidido faça par com o seu coração.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ambíguo

Sou mau/calculista quando dou a mão tola/estratégica. Sou bom/realista quando viro as costas conscientemente/sinceramente. Quando uso as palavras rebuscadas/padronizadas sou vão/mentiroso. Profundo quando invento/transformo. Neurótico, quando estou lúcido/consciente. Artificial na alegria, confuso na serenidade, verdadeiro nas fantasias, disperso na serenidade. Sou um vento que nasceu da pedra, de pedra que se originou da água. Esboço dourado/desenho realinhado. Código nunca totalmente decifrado. Líquido que forma um corpo sólido, que nasceu de um pingo/minúsculo. Na minha vida, duas vezes nasci: nas três noites gêmeas. Das minhas três mortes, duas não esqueci: a solidão da existência.


Alberto Magalhães

sábado, 31 de julho de 2010

Nesta tarde

Uma chuva tímida e insistente caía lá fora, suficiente para fazer eu não sair de casa, ir ver tv, cochilar um pouco - fazendo-me perder o final do filme antigo que assistia - e depois ir me sentar em frente a esse instrumento que acessa o mundo virtual e nos permite guardar as nossas reminiscências, lembrando do passado e imaginando o futuro...

A única coisa realmente nossa é o pensamento. Uma névoa que se forma projetando um longo filme em que temos sido ator e que agora assistimos passivamente, anestesiados pela realidade imutável do que vemos, entre tantas cenas que gostaríamos de reeditar. Não dá mais, as cenas se desvaneceram no tempo mas, infelizmente, ficaram congeladas no imaginário de muitos outros atores que contracenaram. Reeditá-los é tarefa impossível.

E perceber que os papéis nos ofertados eram de coadjuvantes, com falas e gestos convenientes a todos os outros personagens que interagiam naquele set, e os papéis que por nós, depois, foram escolhidos – incorporados - eram de personagens que poderiam ser considerados originais e irreverentes, que improvisam e, às vezes, incomodam, destoando do conjunto enfadonho mas afinado. 

E descobrir, serenamente – embora com um desgosto profundo, que tudo já vivido foi incompleto, quase vão. Construído em cima de bases falsas – as nossas verdades não se tornam a verdade do mundo, tudo apenas fachada do que poderia ter sido completo, mas que por falta de dedicação – o simples gesto de se dar por inteiro, não permitiu a si mesmo completar.

Saber que se tem muito pouco tempo nesse mesmo set não incentiva a uma nova empreitada para fazer as coisas com uma nova cor. Ou se refazer simplesmente todas as coisas. Os problemas do corpo físico, a realidade biológica transcende todas as vontades e impera tiranamente no mundo material. O mundo virtual permite apenas um esboço, um ensaio da vitória da razão sobre as limitações e fraquezas humanas.

Alberto Magalhães

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Essências

A casa estava silenciosa naquele finalzinho de tarde, só havia uma lâmpada acesa na sala principal iluminando fracamente o quarto onde eu estava. Os lençóis da cama onde eu havia deitado estavam frescos, proveniente do vento frio que entrava pela janela lateral aberta. Ela, quieta, me aquecia com o seu abraço suave. A TV que, à minha frente, estava desligada não incomodava a penumbra e a paz daquele silêncio. Nenhum som ecoava pelas paredes do recinto. Pela porta aberta eu observava parte da sala e do corredor que dava acesso ao interior da casa. A TV naquela circunstância deixara de ser o eletrodoméstico centro das atenções e tornava-se apenas um móvel imóvel, escuro, sem utilidade a não ser a de revelar que ao apagar-se o palco midiático, sonoro, ilusionista fazia revolverem-se, emergirem da escuridão e “se apresentarem” os outros móveis ocultados na rotina extenuante dos dias passados; as paredes, portas, quadros, objetos que todos os dias me acolhiam e se tornavam um porto seguro. As presenças, que andavam, brincavam, sorriam, comiam, pegavam nas coisas, estavam – todas - sem som. Não olhavam pra mim, não me notavam, não me viam. E eu ali, pertinho, contemplando-os com um espanto nos meus olhos, extasiado de alegria por enxergá-los e tristeza por não podermos interagir. Fechei os olhos, o silêncio ficou muito denso. Calmamente abri os olhos. Além da companheira que já dormia, dos móveis distribuídos pelos cômodos da casa e um gato preguiçoso que dormia no canto do sofá, não havia presença física na casa, só a essência deixada pelos que a ocuparam até o dia anterior, antes de viajarem.


Alberto Magalhães

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Pensei

Estive pensando: o que, afinal, significa a fé para as pessoas?


“...Olhe para o problema, ria dele, escarneça dele, esmague-o... Deus é infinitamente maior que toda angústia... mas infelizmente... passam-se os anos, e como demora essa angústia passar...” (Kleiton, em “87#” www.cantigasdotempo.blogspot.com)


A fé é algo que não se dá de presente, é algo tão relativo e tão absoluto, tão sutil e tão arrebatador, tão sublime e tão absurdo, algo que se fundamenta no futuro e preenche o vazio do presente, vertigem do lúcido, ilusão que cura o louco. Essência que flui no tempo e no espaço e nasceu no coração de Deus. Cegos são os olhos que não a vislumbram. De pedra é o coração que não a sente. Semimorto é o espírito que não a ama, o pintor que não a pinta, o escritor que não a descreve, o ator que não a encena, o viciado que não a deseja, o intelectual que não a questiona, o perverso que não a busca. A alma simples, no oculto, a apreende e a revela aos outros. A fé é algo pela qual, ardentemente, apenas se espera...


Alberto Magalhães

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Aprender

(Copiando Veronica Shoffstall, que copiava William Shakespeare)


Entre tantas coisas na vida eu aprendi a trocar as fraldas de meus filhos (foram sete), a fazer, de forma diferente e deliciosa, o cuscuz especial, o ovo temperado e o cachorro quente, a fingir que estou chateado com a vida pra receber algum afago quando estou meio necessitado, aprendi a ceder e fazer alguma concessão, quando algo maior está em jogo, aprendi a me “enquadrar” quando as coisas estão “pretas”, aprendi a dizer não e sim, a preencher – nela - mais a alma que o corpo, para então eu receber mais no corpo e assim agradar minha alma, aprendi a incomodar a quem os “outros” não ousam incomodar (como são ridículos os puxa sacos, são ridiculamente hilários), aprendi que, às vezes, o amigo que você conquistou hoje será o inimigo de amanhã ou vice versa (porque o seu antigo desafeto torna-se o inimigo de seu inimigo). Aprendi que o grito quase mudo dos comuns ecoa em algum lugar, em algum coração relevante que foi injustiçado um dia e gera fruto, que as letras dos papéis – da bíblia, das enciclopédias, dos tratados, das cartas dos enamorados - salvariam o mundo da desgraça se fosse isso que quisessem, que só se dá valor a paz quando se prenuncia a guerra, aprendi que tem gente que traz mais alegria quando parte deste mundo do que quando chega nele, que realmente (“as virtudes se perdem no interesse como o rio se perde no mar” François La Rochefoucauld), que as nossas virtudes não absolvem os nossos defeitos, que nos muitos interesses se gera a dor, que devemos dar mais atenção aos que estão perto da gente, que o nosso primeiro e maior inimigo reside dentro de nós, que é melhor ouvir que falar - mas isso nem sempre seguimos, que o conhecimento é o caminho para a auto libertação de tudo que nos prende à involução.



Alberto Magalhães

sábado, 26 de junho de 2010

Anjos e demônios

Numa das minhas leituras entendi que nas pessoas existem as mesmas necessidades, fraquezas, dúvidas, aspirações (gerais) e dores. Por isso somos chamados de semelhantes. E entendi que, para eles, podemos ser anjos ou demônios. Anjos, quando estendemos a mão, quando ofertamos um sorriso, quando exortamos, instruímos ou ensinamos, como a segurar a sua mão para que não tropece em negras pedras, quando concedemos um apoio logístico ou moral, quando eventualmente prestamos amparo psicológico ou assistência material, quando, em verdade de gestos e ações, dizemos: "você não é o único a estar passando por isso, e o que é melhor: isso tudo vai passar, porque tudo passa na vida e depois o faz melhor e mais forte." Anjos, quando perdoamos os atos indesejáveis - não digo os perversos - de terceiros, ou simplesmente os relegamos ao espaço neutro do esquecimento, os reduzimos à cota de falhas permitidas a todos. Porque tudo o que constrói, evolui, regenera, alegra, ilumina é de Deus.

Somos verdadeiros demônios, aqueles que ofuscam mentes, conturbam espíritos, afligem almas, flagelam vidas, produzem o mal real, latente ou visível - às vezes por muito tempo, quando desrespeitamos, maltratamos, humilhamos, perseguimos, injustiçamos, negamos o que é devido, o que é de direito não negar, ou quando desprezamos a quem, um dia, nos acolheu.

Se, na dimensão espiritual, existem anjos e demônios a influenciar a mente das pessoas, são os demônios os parceiros dos que invejam, dos que odeiam, dos que se consideram superiores aos seus semelhantes, ou acima do bem e do mal. Na verdade nessa fusão do homem rancoroso com o ser espiritual extraviado do Sumo Amor, negadores da verdade universal, é gerado o demônio real. Para a infelicidade de todos.

( Imagem: internet)


Alberto Magalhaes

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Libelo do amor não correspondido

Era um garoto que amava os Beatles e Regina Duarte (a namoradinha do Brasil). Foi criado por um pai ausente e uma mãe não afetuosa - ela tinha mais outros filhos para criar - e era uma menino muito carente. Retraido e introspectivo desenvolveu uma personalidade com baixa autoestima, insegura e arredia.
Com essas características ele chegou à adolescência sem saber interagir satisfatoriamente com os outros do seu meio, principalmente com as garotas. Quando ele se interessava por alguma e, com muita limitação se aproximava dela, não conseguia construir laços afetivos e era, nesse sentido, rejeitado. Essa experiência negativa atingiu de forma contundente a sua personalidade, já fragilizada, deixando uma marca profunda na sua alma.
Com o passar do tempo, já na fase adulta, ele conseguiu superar as suas dificuldades psicológicas no campo da sociabilidade inserindo nesse bojo a afetividade e a natural arte da sedução, após anos se preparando para isso. Para tanto observou, acompanhou os relacionamentos amorosos das pessoas próximas e construiu uma idéia própria a respeito das necessidades humanas nessa seara e das técnicas da conquista do amor e passou a praticá-las. No entanto, o que fluia de si não era algo inerente à sua pessoa, era uma habilidade adquirida, uma especialização na arte da conquista - nascida da necessidade de ser correspondido na sua busca de amor - e não uma peculiaridade natural, intrínseca dele.
Com essa nova disposição e preparo de espírito ele passou a ter acesso ao coração das pessoas. Agora ele sabia em quem chegar, quando e como. Desenvolveu, pelo lado inverso, a arte da sedução e da conquista. Fazia o que as mulheres esperavam que ele fizesse, dizia o que elas precisavam ouvir e recheava os contatos com alguns recursos culturais que dispunha e que eram agradáveis às pessoas comuns. Mas tudo fazia com convicção e firmeza. Para tanto envolvia-se plenamente naquilo que vivia ao ponto de tornar real - pelo menos por algum tempo - tudo o que se exigia no relacionamento que se iniciava. Assim, irremediavelmente e completamente, as seduzia.
Porém um lado negro se desenvolveu à sombra disso. O passado iria cobrar a sua parte na história. O coração que ele seduzia passou a ser não simplesmente a conquista do amor, era também a conquista de um território antes intransponível, desejado até a linha do ódio, era uma batalha vencida contra o inimigo que confundia-se entre a sua própria deficiência e a pessoa desejada. Tornando-a, de certa forma, o inimigo do seu ego a ser dominado para curar a sua frustração, aliviar o seu coração ferido e satisfazer os seus desejos afetivos e sexuais. Isso tornou-se um vício.
Para essas pessoas ele ia se revelando uma personalidade enigmática: oscilava entre carinhoso e arrogante, romântico e possessivo, protetor (controlador) e indiferente, apaixonado e aparentemente infiel... O que, de alguma forma, as atraia mais ainda visto que ele alcançava e preenchia o coração de quem estava carente de alguém que não fosse superficial afetivamente, o que definitivamente ele não era, vez que era impregnado de paixões antigas não correspondidas que precisava vivê-las ( e inconscientemente as revivia como forma de libertação espiritual) no espírito e no corpo de quem quer que fosse, que lhe atraisse.
Para ele a aproximação, sedução e a conquista despertava em seu ser sentimentos desencontrados: hora a realização de um desejo natural e saudável, a superação da sua antiga deficiência, hora apenas a subjugação daquilo que se apresentava um obstáculo ao seu sentimento de ser aceito e querido, hora a revanche revigoradora de ter o domínio da arte de seduzir a quem lhe interessava, como alvo daquele jogo da sedução e conquista, e que antes lhe evitava. O prazer que lhe causava uma conquista, aumentava quando em seguida ele a tornava substituível por outra que começava a prosperar. A realização de uma conquista era o combustível que o animava a prosseguir em nova conquista. Primeiro porque fazia daquele alvo, antes inalcançável, um objeto inferior a si, algo subserviente aos seus caprichos, quando antes tinha sido o oposto. Também não queria correr o risco de voltar a ser rejeitado ao se apegar em demasia.
O "doce sofrimento", como dizia, de quem amava alguém que lhe desejou e o abandonou era muito menor que o de alguém que não chegou a ser desejado por quem tanto desejou. Para ele quem teve um amor pra viver e sofrer era um feliz vitorioso sobre quem não viveu amor nenhum. E assim ele seguiu amando, sendo amado e depois negando esse amor em busca de outros. Até encontrar um que consiga lhe redimir e traga a paz, não paixão. Essa o adoeceu.


Alberto Magalhães

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A letra dói

(Ou A letra que faz doer)


Não vou mais escrever. Pelo menos por algum tempo, que espero seja longo. Até o dia em que eu ficar cheio de novo do instintivo, carnal, comum, dos vícios mundanos, da mediocridade minha e dos meus semelhantes que me mostram o quanto eu sou pequeno e ridículo. Alguém me disse hoje: você nos manda mensagens demais, incomoda, abusa da nossa mente, escreve muitas bobagens, devia “dar um tempo” de letras... Na hora eu ri, de tão engraçado que eu achei. Não, na verdade a pessoa que é minha amiga e colega de trabalho – a sinceridade é uma grande aliada e nos é mais útil que o fingimento ou a mentira – não disse nada disso. Falou-me com uma palavra educada e comedida, mas para bom entendedor meia palavra basta, um pingo é uma letra. Então logo que dobrei a primeira esquina me veio esse desejo de não ter o desejo de me expressar para os outros, dividindo algumas coisas que passei a ver como essenciais para nós que já estamos mais perto do fim que do começo, mais perto do ocaso que da gênese da vida. Não mais andarei catando tolices, juntando frases vãs, não mais comentarei da frivolidade das coisas que permeiam a nossa vida ou das virtudes e sentimentos que deveriam nos motivar, nem dos pensamentos para nos moldar. Pronto! Lá vou eu com essa maldita mania adquirida de falar do que as pessoas não querem ouvir: da frivolidade do que nos move, nos incita e nos domina diariamente. Quando fiquei cheio de mim passei a encher o saco dos outros. Já nos bastam o pão e o circo, para quê então as abstrações e reminiscências de filósofos doidos, de escritores desocupados, de pensadores sedentários e quase “brochas”, de pregadores alienados do moderno contexto social-político-capitalista-vanguardista-exotérico-sincretista, etc. etc. O bom mesmo é dinheiro. Com ele a gente pode tudo. Com ele a gente compra garrafas de bebidas pra encher a cara até ficar grogue e adoecer o indolente fígado, compra cocaína pra cheirar até sangrar o nariz, paga enfermeiros pra fazer aborto nas nossas filhas adolescentes, paga a um detetive pra espionar a nossa mulher (ou marido) suspeita(o), paga ao contador para que soneguemos o imposto devido, corrompe os interessados em nos livrar das contravenções e infrações, compra testemunhas falsas, paga o carro, combustível, motel e o cachê de garotas e garotos de "programas" viçosos e vistosos, leva pra casa filmes pornográficos que as crianças assistem quando damos as costas, faz festas pra regalar os “amigos” de plantão... Que maravilha o dinheiro, vou me importar só com isso agora. Com ele o mundo fica mais sedutor.

Para quê os textos que nos fazem pensar, questionar, incomodar o nosso interior e comprometer o nosso status? Não vou escrever, eu prometo! Até o vazio voltar a ser o meu companheiro insuportável.


Alberto Magalhães

quarta-feira, 3 de março de 2010

A mulher

Dizem que a mulher não é mais o sexo frágil. Na verdade nunca foi. No entanto ela padece de algumas desvantagens. E em decorrência disso ai está o seu valor. Vejamos: Na puberdade, ao contrário do menino, geralmente a garota sente dores decorrentes de cólicas menstruais provenientes do afloramento da sexualidade. Na primeira relação sexual (ou nas primeiras) ela sente dores em decorrência da ruptura do hímen que atesta a virgindade. Em relação sexual distinta da vaginal sempre esta é acompanhada da dor, tendo em vista a dificuldade de se ter penetração em local inapropriado para tal. Quando das relações íntimas aparece uma gravidez, quem é fertilizado(a)? A mulher gera e concebe em dor - depois de nove meses de azia, corpo pesado, veias à mostra, parto normal (mediante grave dor) ou cesáreo (mediante cirurgia, e posteriormente sentirá dor). Quem vai nutrir o rebento? Ela. O bebê rasga-lhe os bicos dos seios para mamar. A mulher é quem mais vara as noites acordada para acalentar o pequerrucho. Na briga entre homem e mulher, quem mais apanha? Existem quantos homens estuprados por mulher? Assaltados por mulher? Já no campo oposto...

E, não obstante tudo isso, a mulher cuida do seu homem doente (quando é ela a doente o marido chama a sogra), cuida da sua roupa para lhe tornar apresentável (às vezes para outra, momentaneamente), lhe satisfaz nos seus desejos, nas suas vontades...

No entanto quando ela resolve de alguma maneira (e existem umas!...) cobrar a contrapartida, coitado do homem. Aí neguinho vê quem é o sexo frágil.

P.S Dê uma olhada na cara da Mona Liza que você vai entender melhor o que eu estou falando.

Alberto Magalhães


Imagem: A Mona liza (La Gioconda) de Leonardo da Vinci.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Num momento*

O relógio na parede era antigo e empoeirado. Estava parado, imóvel. Como também imobilizara tudo à sua volta. A parede estava envelhecida e cansada do tempo que passara em pé, sustentando aquela tapera. Nela uma foto em preto e branco retratava uma época que não mais existia: pálida, triste, inerte. A vida se esvaíra por entre uns rasgos do papel.

A foto deles parecia um desenho imaginado por um pintor delirante. O vapor quente emanado impregnava o ar de solidão desoladora. Um vazio silente parecia se condensar e querer explodir em milhares de sons. Três besouros secos jaziam no chão, aos pés da parede. Um pote vermelho escuro no canto estava vazio, recoberto de poeira. Uma pedra, uma corda já desfiada e uma bainha de faca em couro habitavam o centro do recinto. E pareciam contar histórias de outrora. Um cabrito estivera amarrado naquela corda e um preá fora tratado com aquela faca...?

Os meus pensamentos logo ficaram conturbados por aquele burburinho que lá do abismo queria fluir, num turbilhão de vozes, relinchos de um cavalo magro, crepitar de madeira acesa no velho fogão no canto, choro de criança agarrando-se à saia da mãe... Lá fora um sol causticante devorava a superfície de toda matéria que tocava e ressequia as almas dos sobreviventes. Um bafo mais quente invadiu o recinto e despertou-me.

Aquele silencioso vazio, embora tão cheio de imagens, atravessava a janela e a porta que não mais existiam e se perdia no vazio silencioso de fora. O bafo quente que entrava me fez lembrar que alguma coisa viva existia naquele lugar.

Levantei-me do chão e saí, fui só. A minha alma lá ficaria desfalecida.


(*escritos da minha 1ª viagem ao sertão)


Alberto Magalhães

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Epílogo

A violência constante nas cidades reflete, talvez, o desequilíbrio inconsciente do homem que não encontrou nos valores cultivados pela sociedade moderna um resultado benéfico para si.

O avanço admirável da tecnologia e a modernidade do Estado não trouxeram a paz social, as relações afetivas não se consolidaram plenamente com a liberalidade, a família não se solidificou com o aumento das religiões, a melhoria nas estruturas físicas das cidades não trouxe melhoria no campo pessoal. A humanidade está desiludida consigo mesma, com seus paradigmas. Não se acredita mais nos políticos e nos líderes religiosos como antes. Não se confia mais nos pais, professores, vizinhos...

As tantas formas de conflitos entre pessoas nas cidades e o suicídio em todos os países do mundo nos mostram o fracasso do homem em sua busca de bem estar pleno, de realização pessoal e familiar só nos governos humanos, nas Instituições criadas, nos prazeres imediatos...

Alcançamos um grande progresso científico, tecnológico, secular. Porém houve uma decadência do homem como ser espiritual. Tentamos abafar nossa própria consciência com tudo o que nos cerca de fácil e interessante sem nos importarmos com a perda dos melhores valores da vida. Tudo o que ocorre de ruim ao nosso redor é fruto disso.


Alberto Magalhães


Imagem: Manifestação na Praça da Paz Celestial/Fonte:Internet/autoria desconhecida.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Carta para Teófilo

Recentemente descobri que o Ser é algo fragmentado, existe em pedaços. Ouvi dizer: Freud explica. Em cada parte de mim um contraste. A criança que não completou sua fase de filho depois da ruptura familiar, o adolescente rebelde, o evangelizador que se comovia com os pobres e os leigos, o agente da lei (idealista e utópico) que enfrentava o malfeitor desvairadamente, o pai perdido entre a responsabilidade de instruir e o amor que lhe confundiam. O bêbado, por vezes. O contraventor. O "subversivo" que inflamava desafetos. A recaída de apaixonado pregador para alguns próximos. O escriba de textos guardados. O amigo que entendia todos os outros e nem sempre era entendido. Tudo junto em alguém, conturbando o senso de direção. Cada um de momento a momento emergindo, se revelando e querendo o seu quinhão, brigando por espaço. Exigindo se formar por inteiro, completar o seu ciclo. Pressionando o hospedeiro até fazê-lo, por um tempo, afastar-se de tudo e de todos.
Alguém, às vezes, já se achou em algum lugar sem saber para onde queria ir ou para quem? Como se quisesse voar pelo mundo a fora, sem fome, sede e sono até se desintegrar? Como ser um indivíduo sem uma unidade? Em vários pedaços que não se completam, mas se contrastam? No entanto tudo amadurece – nesse caso por diferentes sementes, e dá algum fruto, com contornos definidos. Só o tempo, o bom, edificante, revelador e velho tempo para harmonizar o ser e apaziguar todos os fogos, todas as mágoas e todas as culpas e assim desembaçar as nossas visões, sejam reais ou não.


Alberto Magalhães