quarta-feira, 14 de abril de 2010

A letra dói

(Ou A letra que faz doer)


Não vou mais escrever. Pelo menos por algum tempo, que espero seja longo. Até o dia em que eu ficar cheio de novo do instintivo, carnal, comum, dos vícios mundanos, da mediocridade minha e dos meus semelhantes que me mostram o quanto eu sou pequeno e ridículo. Alguém me disse hoje: você nos manda mensagens demais, incomoda, abusa da nossa mente, escreve muitas bobagens, devia “dar um tempo” de letras... Na hora eu ri, de tão engraçado que eu achei. Não, na verdade a pessoa que é minha amiga e colega de trabalho – a sinceridade é uma grande aliada e nos é mais útil que o fingimento ou a mentira – não disse nada disso. Falou-me com uma palavra educada e comedida, mas para bom entendedor meia palavra basta, um pingo é uma letra. Então logo que dobrei a primeira esquina me veio esse desejo de não ter o desejo de me expressar para os outros, dividindo algumas coisas que passei a ver como essenciais para nós que já estamos mais perto do fim que do começo, mais perto do ocaso que da gênese da vida. Não mais andarei catando tolices, juntando frases vãs, não mais comentarei da frivolidade das coisas que permeiam a nossa vida ou das virtudes e sentimentos que deveriam nos motivar, nem dos pensamentos para nos moldar. Pronto! Lá vou eu com essa maldita mania adquirida de falar do que as pessoas não querem ouvir: da frivolidade do que nos move, nos incita e nos domina diariamente. Quando fiquei cheio de mim passei a encher o saco dos outros. Já nos bastam o pão e o circo, para quê então as abstrações e reminiscências de filósofos doidos, de escritores desocupados, de pensadores sedentários e quase “brochas”, de pregadores alienados do moderno contexto social-político-capitalista-vanguardista-exotérico-sincretista, etc. etc. O bom mesmo é dinheiro. Com ele a gente pode tudo. Com ele a gente compra garrafas de bebidas pra encher a cara até ficar grogue e adoecer o indolente fígado, compra cocaína pra cheirar até sangrar o nariz, paga enfermeiros pra fazer aborto nas nossas filhas adolescentes, paga a um detetive pra espionar a nossa mulher (ou marido) suspeita(o), paga ao contador para que soneguemos o imposto devido, corrompe os interessados em nos livrar das contravenções e infrações, compra testemunhas falsas, paga o carro, combustível, motel e o cachê de garotas e garotos de "programas" viçosos e vistosos, leva pra casa filmes pornográficos que as crianças assistem quando damos as costas, faz festas pra regalar os “amigos” de plantão... Que maravilha o dinheiro, vou me importar só com isso agora. Com ele o mundo fica mais sedutor.

Para quê os textos que nos fazem pensar, questionar, incomodar o nosso interior e comprometer o nosso status? Não vou escrever, eu prometo! Até o vazio voltar a ser o meu companheiro insuportável.


Alberto Magalhães

5 comentários:

  1. Alberto

    Sabemos da improbabilidade disso se tornar verdade. Em todo caso aí vai, para reforçar, um artigo do Livro dos Nefelibatas que diz:

    Art. 3º"Qualquer um que tenha se lançado a ser fomentador de palavras e que renuncie a este propósito, corre, por conta própria, o risco de auto-ostracismo."

    § 1º Não incorrerá em auto-punição o nefelibata que fizer as 'pausas-conscientes', sendo sabedor de seu retorno (não importa quando, mas ele tem que retornar!!)

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  2. Caro Marcos,
    Você é único em todos os sentidos. O dia de amanhã não nos pertence, pertencemos às suas vicissitudes, as quais - felizmente, são passageiras.
    As inclinações de quem é conciente do seu melhor papel no palco da vida apenas adormecem de vez em quando. Não se preocupe,o Mestre tem sobre controle o destino dos seus.
    Abraço

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  3. Escrever o que se sente é sofrer duas vezes. Mas é um sofrimento diminuído, calmo, que à medida que vai se derramando nas palavras,se esvai por si mesmo, até que um dia todo ele se gaste, se canse de ser escrito, e desapareça de dentro da gente (ou ao menos perca sua força).Então quem poderia ir contra isso? Com que legitimidade? Nem a mais justa das sinceridades poderia jamais estar acima da necessidade dos nossos corações, da sensibilidade especial de poetizar o que a tantos pareceria "impoetizável"...

    Meu elogio também é sincero... então empatou! =p

    bjossssssssssssssssssssssssssssss s2 s2

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  4. Prezado Carlos Alberto,

    Ao ler esse artigo, pude sentir em parte a indignação que lhe causou a estupidez contida em um comentário aparentemente despretensioso, mas cheio de malícia e veneno. Não sei quem foi o infeliz, como se diz lá no sertão, mas noto que em vez de lhe acertar o fígado, o autor do lamentável comentário o fez acessar o âmago do lirismo, da poesia, da prosa, enfim, da palavra que habita nosso inconsciente nobre à maneira dos vinhos guardados em barris de carvalho.
    Assim como não servimos do melhor vinho a quem pouco estimamos, assim também nossa melhor palavra deve ser mantida longe dos néscios e bárbaros que se julgam cultos e civilizados.

    Continue a escrever, doa a quem doer.

    Saudações,

    Paulo Márcio

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  5. Correção: o Mestre dos mestres tem controle sobre a vida dos seus.
    Abraço a todos

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