domingo, 27 de março de 2011

Libelo do ato ímpio

Recentemente eu escrevi um texto denominado “Carta a um amigo”, o qual está postado neste blog. Pois bem, isso não foi por acaso, como por acaso – dizem – nada acontece. Um colega de trabalho naquele momento pensava em tirar a própria vida por questões financeiras e outro por questões amorosas. Tudo transcorria dentro deles numa dimensão superior ao real – mas não pra eles. Para eles tudo teria chegado ao ponto final, nada mais estava importando por aqui. Mas as pessoas ao seu lado não se apercebiam da gravidade, para eles, dos seus dramas pessoais. Até que conversaram comigo. É interessante como tem pessoas que pensam que eu, geralmente, vivo como se estivesse no limite da perspectiva vivencial. Provavelmente eu demonstro isso sem me aperceber. Talvez em virtude disso eu seja receptor de tantos segredos que guardo a sete chaves. Pois bem, conversei com eles sobre experiências pessoais e outros fatos interessantes que contemplei na minha breve caminhada nesse mundo enganador. E, em síntese, de tudo o que conversei, relatei nesse curto texto – Carta a um amigo – a mensagem que servia de epílogo ao objetivo  pretendido. E como eu não tenho como ter acesso – embora gostaria –, pelo menos, aos dilemas cruciais das pessoas que estimo e que estão passando por uma grave crise existencial eu resolvi escrever – das minhas paixões, a maior – sobre parte do que eu disse aos pretendentes ao suicídio:

Eu lutei no útero por uma oportunidade de sobreviver, mesmo que fosse com outro(s). Cheguei só. Sobrevivi à formação do embrião, do feto, ao parto, à frustração de sair de um mundo aconchegante e só meu para a luz desse conturbado mundo. Retirado do casulo para ser entregue nas mãos de estranhos que me puxariam para outra realidade que não escolhi e onde seria apenas mais um. Sobrevivi a impiedosa asma nos primeiros anos, ao sarampo, rubéola, catapora, a uma queda de uma árvore de dez metros de altura aos oito anos, a um afogamento aos treze, e – já adulto - a três acidentes automobilísticos graves e sobrevivi a muitas outras situações que levaram outros a óbito, as quais não acho oportuno declarar.

Não tenho, no entanto, nenhum apego à vida já que ela, na verdade, não me pertence visto que dela não tenho o domínio, mas apenas a posse provisória. Mas também não posso renunciar a ela. Esta primeira vida é uma missão, na qual plantamos algumas ilusões e colhemos dores. Eu, naturalmente, desafio a morte a cada dia que vivo, desde o início da gestação. O corpo é apenas a morada efêmera de um espírito intocável pelas almas sebosas. Mas ai daquele que um dia desencarnar um espírito injustamente, mesmo que seja o seu. Esse ser que se põe como juiz do destino do próximo – ou de si - não é um instrumento do Criador, mas um ser que lhe é adversário. Se eliminar o outro desse plano, injustamente, é um ato ímpio o que não será eliminar a si próprio? Não há justiça nesse propósito. Nele não há fé, não há amor, não há esperança, não há virtude, não há proveito, não há honra.

Alberto Magalhães

domingo, 20 de março de 2011

Deus

De repente tudo parece ser ilusão, fantasia. Família, amigos, amor, ódio, honra, dever de ofício, sonhos, ideais, corpo, vida, morte. Tudo o que de profundo se relaciona com os tais passa a aparentar ser fantasia da mente e se desfará como a neblina ao amanhecer. Deus, esse ser tão magnífico e, por vezes, distante, inalcançável, é a verdade que nunca se apaga e uma chama que não se extingue dentro de mim, a me revelar cruamente para mim mesmo. Ultimamente mata-me aos poucos, sem me destruir. Confunde-me nos meus caminhos, me transtorna sem me enlouquecer. Consome-me sem me aniquilar. Revolve-me completamente, sem me tocar um dedo. Porque na minha omissão eu não mais aborreço os ímpios. Ainda assim Ele me ampara e me protege das forças ocultas. Embora me subverta contra mim mesmo, é quem dá sentido aos meus dias e me faz rir dos poderosos. Por vezes transborda-me de profunda dor ou imenso prazer...       

Alberto Magalhães