segunda-feira, 11 de abril de 2011

Tragédia em Realengo


Talvez não seja muito difícil fazer uma leitura do evento ocorrido na escola em Realengo, no Rio. Essa é uma tentativa de se adentrar nos meandros da mente do assassino Wellington e descobrir as suas razões. Ninguém faria um ato bárbaro desses se não tivesse movido por fundamentos incontestáveis, sólidos na sua mente delirante. Para iniciar devemos observar que mais eventos como aquele não acontecem no mundo apenas por falta de oportunidade para o pretenso executor promover o atentado como, por exemplo, a impossibilidade do pretendente juntar os seus “algozes” no mesmo lugar, ou tê-los juntos no mesmo tempo e espaço, como aconteceu nas escolas que sofreram esses ataques. Certamente Wellington se achou no direito de “punir” os seus “inimigos” que o haviam tratado com desnecessária insensibilidade, desprezo e desrespeito por anos. Atos socialmente impunes. Ele não considerava o seu projeto o de um louco ou de um monstro, mas de um “justiceiro”. Quem lê a bíblia e torna-se um fundamentalista, como ele muito bem demonstra, prega que Deus pune os “ímpios” com a morte e alguns se acham no direito de auxiliá-lo nessa tarefa, como se fossem um anjo da morte. O seu antecipado pedido de perdão ao Divino, em carta, não foi exatamente por causa das mortes que iria causar, mas da sua própria vida que iria deliberadamente encerrar naquele ato. De alguma forma esse tipo de pessoa considera-se “superior” aos seus desafetos, acha-se espiritualmente “iluminado”, por considerar-se incompreendido, injustiçado, perseguido e, portanto, especialmente acolhido pelo Ente divino. Na sua caminhada à escola Tasso da Silveira ele pode ter se sentido um herói, um justiceiro dos fracos, oprimidos e humilhados, dos incompreendidos, rejeitados, diferentes.  A preferência dele em executar as meninas pode ter se dado porque elas “podiam” e “deviam” ter-lhe sido solidárias e favorável, por serem mulheres, portanto sempre mais sensíveis e compreensivas. Ele certamente considerava-se um cidadão honrado, virtuoso, digno... E a cultura atualmente assimilada pela juventude feminina é a da sensualidade pura, da qualidade física e a de recepcionar, preferencialmente, o descolado, o transgressor, o despojado de valores éticos e morais e que interage com todos os segmentos pragmáticos. Tudo o que ele não era. E só elas, ao menos uma, poderia lhe ter reabilitado frente a eles. Se alguém teve a vontade para isso, não teve coragem suficiente de se indispor contra a horda adversa. A sua solidão teria se tornado interiormente devastadora. No seu gesto extremo ele tentava sair da insignificância que lhe submeteram para a notoriedade dramática, correspondente ao seu dilema: ser mais um anônimo fracassado ou ganhar relevante projeção exatamente por meio daqueles que o jogaram para o fundo do poço? Ele era muito desajustado e a sua tentativa de sublimação veio num ato que não era só de ascensão. Mas, um misto de superação, vingança, justiça, catarse. O seu encontro com a libertação seria o encontro com a morte. Talvez, se pudesse, a de todos.
Alberto Magalhães

3 comentários:

  1. Olá Alberto! Cheguei a esse post através do link http://notasdemidia.blogspot.com/2011/04/tragedia-em-realengo_15.html

    Por ser você o autor, transcrevo o comentário feito lá:

    “Esse é um daqueles casos que os populares meios de comunicação escolhem como carro-chefe para adquirir alguns pontinhos a mais junto a população.

    Claro que por ter sido um caso atípico no Brasil merecia destaque, no entanto, merecia um destaque com cunho mais cauteloso... sem o já tão velho apelo a comoção nacional.

    Gostaria de ver esse rebuliço todo para exigir tratamento adequado aos doentes mentais, para exigir mais segurança, mais educação...”

    Abç.

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  2. Concordo plenamente, Marionete.
    Abraço,

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  3. Esse post traz verdades que as pessoas não assumem quando a hipocrisia nas relações sociais fica exposta. Revelador e corajoso texto.

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