sábado, 31 de julho de 2010

Nesta tarde

Uma chuva tímida e insistente caía lá fora, suficiente para fazer eu não sair de casa, ir ver tv, cochilar um pouco - fazendo-me perder o final do filme antigo que assistia - e depois ir me sentar em frente a esse instrumento que acessa o mundo virtual e nos permite guardar as nossas reminiscências, lembrando do passado e imaginando o futuro...

A única coisa realmente nossa é o pensamento. Uma névoa que se forma projetando um longo filme em que temos sido ator e que agora assistimos passivamente, anestesiados pela realidade imutável do que vemos, entre tantas cenas que gostaríamos de reeditar. Não dá mais, as cenas se desvaneceram no tempo mas, infelizmente, ficaram congeladas no imaginário de muitos outros atores que contracenaram. Reeditá-los é tarefa impossível.

E perceber que os papéis nos ofertados eram de coadjuvantes, com falas e gestos convenientes a todos os outros personagens que interagiam naquele set, e os papéis que por nós, depois, foram escolhidos – incorporados - eram de personagens que poderiam ser considerados originais e irreverentes, que improvisam e, às vezes, incomodam, destoando do conjunto enfadonho mas afinado. 

E descobrir, serenamente – embora com um desgosto profundo, que tudo já vivido foi incompleto, quase vão. Construído em cima de bases falsas – as nossas verdades não se tornam a verdade do mundo, tudo apenas fachada do que poderia ter sido completo, mas que por falta de dedicação – o simples gesto de se dar por inteiro, não permitiu a si mesmo completar.

Saber que se tem muito pouco tempo nesse mesmo set não incentiva a uma nova empreitada para fazer as coisas com uma nova cor. Ou se refazer simplesmente todas as coisas. Os problemas do corpo físico, a realidade biológica transcende todas as vontades e impera tiranamente no mundo material. O mundo virtual permite apenas um esboço, um ensaio da vitória da razão sobre as limitações e fraquezas humanas.

Alberto Magalhães

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Essências

A casa estava silenciosa naquele finalzinho de tarde, só havia uma lâmpada acesa na sala principal iluminando fracamente o quarto onde eu estava. Os lençóis da cama onde eu havia deitado estavam frescos, proveniente do vento frio que entrava pela janela lateral aberta. Ela, quieta, me aquecia com o seu abraço suave. A TV que, à minha frente, estava desligada não incomodava a penumbra e a paz daquele silêncio. Nenhum som ecoava pelas paredes do recinto. Pela porta aberta eu observava parte da sala e do corredor que dava acesso ao interior da casa. A TV naquela circunstância deixara de ser o eletrodoméstico centro das atenções e tornava-se apenas um móvel imóvel, escuro, sem utilidade a não ser a de revelar que ao apagar-se o palco midiático, sonoro, ilusionista, fazia emergirem da escuridão e “se apresentarem” os outros móveis ocultados na rotina extenuante dos dias passados; as paredes, portas, quadros, objetos que todos os dias me acolhiam e se tornavam um porto seguro. As presenças, que andavam, brincavam, sorriam, comiam, pegavam nas coisas, estavam – todas - sem som. Não olhavam pra mim, não me notavam, não me viam. E eu ali, pertinho, contemplando-os com um espanto nos meus olhos, extasiado de alegria por enxergá-los e tristeza por não podermos interagir. Fechei os olhos, o silêncio ficou muito denso. Calmamente abri os olhos. Além da companheira que já dormia, dos móveis distribuídos pelos cômodos da casa e um gato preguiçoso que dormia no canto do sofá, não havia presença física na casa, só a essência deixada pelos meus filhos que a ocuparam até o dia anterior, antes de viajarem.

Janeiro de 2005

Alberto Magalhães

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Pensei

Estive pensando: o que, afinal, significa a fé para as pessoas?


“...Olhe para o problema, ria dele, escarneça dele, esmague-o... Deus é infinitamente maior que toda angústia... mas infelizmente... passam-se os anos, e como demora essa angústia passar...” (Kleiton, em “87#” www.cantigasdotempo.blogspot.com)


A fé é algo que não se dá de presente, é algo tão relativo e tão absoluto, tão sutil e tão arrebatador, tão sublime e tão absurdo, algo que se fundamenta no futuro e preenche o vazio do presente, vertigem do lúcido, ilusão que cura o louco. Essência que flui no tempo e no espaço e nasceu no coração de Deus. Cegos são os olhos que não a vislumbram. De pedra é o coração que não a sente. Semimorto é o espírito que não a ama, o pintor que não a pinta, o escritor que não a descreve, o ator que não a encena, o viciado que não a deseja, o intelectual que não a questiona, o perverso que não a busca. A alma simples, no oculto, a apreende e a revela aos outros. A fé é algo pela qual, ardentemente, apenas se espera...


Alberto Magalhães

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Aprender

(Copiando Veronica Shoffstall, que copiava William Shakespeare)

Entre tantas coisas na vida eu aprendi a trocar as fraldas de meus filhos (foram seis), a fazer, de forma diferente e deliciosa, o cuscuz especial, o ovo temperado e o cachorro quente, a fingir que estou chateado com a vida pra receber algum afago quando estou meio necessitado, aprendi a ceder e fazer alguma concessão, quando algo maior está em jogo, aprendi a me enquadrar quando as coisas estão difíceis, aprendi a dizer não e sim, a preencher – nela - mais a alma que o corpo, para então eu receber mais no corpo e assim agradar minha alma, aprendi a incomodar a quem os “outros” não ousam incomodar (como são ridículos os puxa sacos), aprendi que, às vezes, o amigo que você conquistou hoje será o inimigo de amanhã ou vice-versa (porque o seu antigo desafeto torna-se o inimigo de seu inimigo). Aprendi que o grito quase mudo dos comuns ecoa em algum lugar, em algum coração relevante que foi injustiçado um dia e gera fruto, que as letras dos papéis – da bíblia, das enciclopédias, dos tratados, das cartas dos enamorados - salvariam o mundo da desgraça se fosse isso que quisessem, que só se dá valor a paz quando se prenuncia a guerra, aprendi que tem gente que traz menos alegria que tristeza, que realmente “as virtudes se perdem no interesse como o rio se perde no mar” (François La Rochefoucauld), que as nossas virtudes não absolvem os nossos defeitos, que nos muitos interesses se gera a dor, que devemos dar mais atenção aos que estão perto da gente, que o nosso primeiro e maior inimigo reside dentro de nós, que é melhor ouvir que falar - mas isso nem sempre seguimos, que o conhecimento é o caminho para a auto libertação de tudo que nos prende à involução.

Alberto Magalhães

sábado, 26 de junho de 2010

Anjos e demônios

Numa das minhas leituras entendi que nas pessoas existem as mesmas necessidades, fraquezas, dúvidas, aspirações (no sentido geral) e dores. Por isso somos chamados de semelhantes. E entendi que, para eles, podemos ser anjos ou demônios. Anjos, quando estendemos a mão, quando ofertamos um sorriso, quando exortamos, instruímos ou ensinamos, como a segurar a sua mão para que não tropece em negras pedras, quando concedemos um apoio logístico ou moral, quando eventualmente prestamos amparo psicológico ou assistência material, quando, em verdade de gestos e ações, dizemos: "você não é o único a estar passando por isso, e o que é melhor: isso tudo vai passar, porque tudo passa na vida e depois o faz melhor e mais forte." Anjos, quando perdoamos os atos indesejáveis - não digo os perversos - de terceiros, ou simplesmente os relegamos ao espaço neutro do esquecimento, os reduzimos à cota de falhas permitidas a todos. Porque tudo o que constrói, evolui, regenera, alegra, ilumina é de Deus.

Somos verdadeiros demônios, aqueles que ofuscam mentes, conturbam espíritos, afligem almas, flagelam vidas, produzem o mal real, latente ou visível - às vezes por muito tempo, quando desrespeitamos, maltratamos, humilhamos, perseguimos, injustiçamos, negamos o que é devido, o que é de direito não negar, ou quando desprezamos a quem, um dia, nos acolheu (sem segundas intenções).

Se, na dimensão espiritual, existem anjos e demônios a influenciar a mente das pessoas, são os demônios os parceiros dos que invejam, dos que odeiam, dos que se consideram superiores aos seus semelhantes, ou acima do bem e do mal. Na verdade nessa fusão do homem rancoroso com o ser espiritual extraviado do Sumo Amor, negadores da verdade universal, é gerado o demônio real. Para a infelicidade de todos.

( Imagem: internet)


Alberto Magalhaes

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Libelo do amor não correspondido

"Era um garoto que amava os Beatles" e Regina Duarte (a namoradinha do Brasil). Foi criado por um pai ausente e uma mãe não afetuosa - ela tinha mais outros filhos para criar - e era uma menino muito carente. Retraído e introspectivo desenvolveu uma personalidade com baixa autoestima, insegura e arredia.
Com essas características ele chegou à adolescência sem saber interagir satisfatoriamente com os outros do seu meio, principalmente com as garotas. Quando ele se interessava por alguma e, com muita limitação se aproximava dela, não conseguia construir laços afetivos e era, nesse sentido, rejeitado. Essa experiência negativa atingiu de forma contundente a sua personalidade, já fragilizada, deixando uma marca profunda na sua alma.
Com o passar do tempo, já na fase adulta, ele conseguiu superar as suas dificuldades psicológicas no campo da sociabilidade inserindo nesse bojo a afetividade e a natural arte da sedução, após anos se preparando para isso. Para tanto observou, acompanhou os relacionamentos amorosos das pessoas próximas e construiu uma ideia própria a respeito das necessidades humanas nessa seara e das técnicas da conquista do amor e passou a praticá-las. No entanto, o que fluía de si não era algo inerente à sua pessoa, era uma habilidade adquirida, uma especialização na arte da conquista - nascida da necessidade de ser correspondido na sua busca de amor - e não uma peculiaridade natural, intrínseca dele.
Com essa nova disposição e preparo de espírito ele passou a ter acesso ao coração das pessoas. Agora ele sabia em quem chegar, quando e como. Desenvolveu, pelo lado inverso, a arte da sedução e da conquista. Fazia o que as mulheres esperavam que ele fizesse, dizia o que elas precisavam ouvir e recheava os contatos com alguns recursos culturais que dispunha e que eram agradáveis às pessoas comuns. Mas tudo fazia com convicção e firmeza. Para tanto envolvia-se plenamente naquilo que vivia ao ponto de tornar real - pelo menos por algum tempo - tudo o que se exigia no relacionamento que se iniciava. Assim, irremediavelmente e completamente, as seduzia.
Porém um lado negro se desenvolveu à sombra disso. O passado iria cobrar a sua parte na história. O coração que ele seduzia passou a ser não simplesmente a conquista do amor, era também a conquista de um território antes intransponível, desejado até a linha do ódio, era uma batalha vencida contra o inimigo que confundia-se entre a sua própria deficiência e a pessoa desejada. Tornando-a, de certa forma, o inimigo do seu ego a ser dominado para curar a sua frustração, aliviar o seu coração ferido e satisfazer os seus desejos afetivos e sexuais. Isso tornou-se um vício.
Para essas pessoas ele ia se revelando uma personalidade enigmática: oscilava entre carinhoso e arrogante, romântico e possessivo, protetor (controlador) e indiferente, apaixonado e aparentemente infiel... O que, de alguma forma, as atraia mais ainda visto que ele alcançava e preenchia o coração de quem estava carente de alguém que não fosse superficial afetivamente, o que definitivamente ele não era, vez que era impregnado de paixões antigas não correspondidas que precisava vivê-las ( e inconscientemente as revivia como forma de libertação espiritual) no espírito e no corpo de quem quer que fosse, que lhe atraísse.
Para ele a aproximação, sedução e a conquista despertava em seu ser sentimentos desencontrados: hora a realização de um desejo natural e saudável, a superação da sua antiga deficiência, hora apenas a subjugação daquilo que se apresentava um obstáculo ao seu sentimento de ser aceito e querido, hora a revanche revigoradora de ter o domínio da arte de seduzir a quem lhe interessava, como alvo daquele jogo da sedução e conquista, e que antes lhe evitava. O prazer que lhe causava uma conquista, aumentava quando em seguida ele a tornava substituível por outra que começava a prosperar. A realização de uma conquista era o combustível que o animava a prosseguir em nova conquista. Primeiro porque fazia daquele alvo, antes inalcançável, um objeto inferior a si, algo subserviente aos seus caprichos, quando antes tinha sido o oposto. Também não queria correr o risco de voltar a ser rejeitado ao se apegar em demasia.
O "doce sofrimento", como dizia, de quem amava alguém que lhe desejou e o abandonou era muito menor que o de alguém que não chegou a ser desejado por quem tanto desejou. Para ele quem teve um amor pra viver e sofrer era um feliz vitorioso sobre quem não viveu amor nenhum. E assim ele seguiu amando, sendo amado e depois negando esse amor em busca de outros. Até encontrar um que consiga lhe redimir e traga a paz, não paixão. Essa o adoeceu.


Alberto Magalhães

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A letra dói

(Ou A letra que faz doer)

Não vou mais escrever. Pelo menos por algum tempo, que espero seja longo. Até o dia em que eu ficar cheio de novo do instintivo, carnal, comum, dos vícios mundanos, da mediocridade minha e dos meus semelhantes que me mostram o quanto eu sou pequeno e ridículo. Alguém me disse hoje: você nos manda mensagens demais, incomoda, abusa da nossa mente, escreve muitas bobagens, devia “dar um tempo” de letras... Na hora eu ri, de tão engraçado que eu achei. Não, na verdade a pessoa que é minha amiga e colega de trabalho – a sinceridade é uma grande aliada e nos é mais útil que o fingimento ou a mentira – não disse nada disso. Falou-me com uma palavra educada e comedida, mas para bom entendedor meia palavra basta, um pingo é uma letra. Então logo que dobrei a primeira esquina me veio esse desejo de não ter o desejo de me expressar para os outros, dividindo algumas coisas que passei a ver como essenciais para nós que já estamos mais perto do fim que do começo, mais perto do ocaso que da gênese da vida. Não mais andarei catando tolices, juntando frases vãs, não mais comentarei da frivolidade das coisas que permeiam a nossa vida ou das virtudes e sentimentos que deveriam nos motivar, nem dos pensamentos para nos moldar. Pronto! Lá vou eu com essa maldita mania adquirida de falar do que as pessoas não querem ouvir: da frivolidade do que nos move, nos incita e nos domina diariamente. Quando fiquei cheio de mim passei a encher o saco dos outros. Já nos bastam o pão e o circo, para quê então as abstrações e reminiscências de filósofos doidos, de escritores desocupados, de pensadores sedentários e quase “brochas”, de pregadores alienados do moderno contexto social-político-capitalista-vanguardista-exotérico-sincretista, etc. etc. O bom mesmo é dinheiro. Com ele a gente pode tudo. Com ele a gente compra garrafas de bebidas pra encher a cara até ficar grogue e adoecer o indolente fígado, compra cocaína pra cheirar até sangrar o nariz, paga enfermeiros pra fazer aborto nas nossas filhas adolescentes, paga a um detetive pra espionar a nossa mulher (ou marido) suspeita(o), paga ao contador para que soneguemos o imposto devido, corrompe os interessados em nos livrar das contravenções e infrações, compra testemunhas falsas, paga o carro, combustível, motel e o cachê de garotas e garotos de "programas" viçosos e vistosos, leva pra casa filmes pornográficos que as crianças assistem quando damos as costas, faz festas pra regalar os “amigos” de plantão... Que maravilha o dinheiro, vou me importar só com isso agora. Com ele o mundo fica mais sedutor.

Para quê os textos que nos fazem pensar, questionar, incomodar o nosso interior e comprometer o nosso status? Não vou escrever, eu prometo! Até o vazio voltar a ser o meu companheiro insuportável.


Alberto Magalhães

quarta-feira, 3 de março de 2010

A mulher

Dizem que a mulher não é mais o sexo frágil. Na verdade nunca foi. No entanto ela padece de algumas desvantagens. E em decorrência disso ai está o seu valor. Vejamos: Na puberdade, ao contrário do menino, geralmente a garota sente dores decorrentes de cólicas menstruais provenientes do afloramento da sexualidade. Na primeira relação sexual (ou nas primeiras) ela sente dores em decorrência da ruptura do hímen que atesta a virgindade. Em relação sexual distinta da vaginal sempre esta é acompanhada da dor, tendo em vista a dificuldade de se ter penetração em local inapropriado para tal. Quando das relações íntimas aparece uma gravidez, quem é fertilizado(a)? A mulher gera e concebe em dor - depois de nove meses de azia, corpo pesado, veias à mostra, parto normal (mediante grave dor) ou cesáreo (mediante cirurgia, e posteriormente sentirá dor). Quem vai nutrir o rebento? Ela. O bebê rasga-lhe os bicos dos seios para mamar. A mulher é quem mais vara as noites acordada para acalentar o pequerrucho. Na briga entre homem e mulher, quem mais apanha? Existem quantos homens estuprados por mulher? Assaltados por mulher? Já no campo oposto...

E, não obstante tudo isso, a mulher cuida do seu homem doente (quando é ela a doente o marido chama a sogra), cuida da sua roupa para lhe tornar apresentável (às vezes para outra, momentaneamente), lhe satisfaz nos seus desejos, nas suas vontades...

No entanto quando ela resolve de alguma maneira (e existem umas!...) cobrar a contrapartida, coitado do homem. Aí neguinho vê quem é o sexo frágil.

P.S Dê uma olhada na cara da Mona Liza que você vai entender melhor o que eu estou falando.

Alberto Magalhães


Imagem: A Mona liza (La Gioconda) de Leonardo da Vinci.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Num momento*

O relógio na parede era antigo e empoeirado. Estava parado, imóvel. Como também imobilizara tudo à sua volta. A parede estava envelhecida e cansada do tempo que passara em pé, sustentando aquela tapera. Nela uma foto em preto e branco retratava uma época que não mais existia: pálida, triste, inerte. A vida se esvaíra por entre uns rasgos do papel.

A foto deles parecia um desenho imaginado por um pintor delirante. O vapor quente emanado impregnava o ar de solidão desoladora. Um vazio silente parecia se condensar e querer explodir em milhares de sons. Três besouros secos jaziam no chão, aos pés da parede. Um pote vermelho escuro no canto estava vazio, recoberto de poeira. Uma pedra, uma corda já desfiada e uma bainha de faca em couro habitavam o centro do recinto. E pareciam contar histórias de outrora. Um cabrito estivera amarrado naquela corda e um preá fora tratado com aquela faca...?

Os meus pensamentos logo ficaram conturbados por aquele burburinho que lá do abismo queria fluir, num turbilhão de vozes, relinchos de um cavalo magro, crepitar de madeira acesa no velho fogão no canto, choro de criança agarrando-se à saia da mãe... Lá fora um sol causticante devorava a superfície de toda matéria que tocava e ressequia as almas dos sobreviventes. Um bafo mais quente invadiu o recinto e despertou-me.

Aquele silencioso vazio, embora tão cheio de imagens, atravessava a janela e a porta que não mais existiam e se perdia no vazio silencioso de fora. O bafo quente que entrava me fez lembrar que alguma coisa viva existia naquele lugar.

Levantei-me do chão e saí, fui só. A minha alma lá ficaria desfalecida.


(*escritos da minha 1ª viagem ao sertão, 1980) 

Alberto Magalhães

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Epílogo

A violência constante nas cidades reflete, talvez, o desequilíbrio inconsciente do homem que não encontrou nos valores cultivados pela sociedade moderna um resultado benéfico para si.

O avanço admirável da tecnologia e a modernidade do Estado não trouxeram a paz social, as relações afetivas não se consolidaram plenamente com a liberalidade, a família não se solidificou com o aumento das religiões, a melhoria nas estruturas físicas das cidades não trouxe melhoria no campo pessoal. A humanidade está desiludida consigo mesma, com seus paradigmas. Não se acredita mais nos políticos e nos líderes religiosos como antes. Não se confia mais nos pais, professores, vizinhos...

As tantas formas de conflitos entre pessoas nas cidades e o suicídio em todos os países do mundo nos mostram o fracasso do homem em sua busca de bem estar pleno, de realização pessoal e familiar só nos governos humanos, nas Instituições criadas, nos prazeres imediatos...

Alcançamos um grande progresso científico, tecnológico, secular. Porém houve uma decadência do homem como ser espiritual. Tentamos abafar nossa própria consciência com tudo o que nos cerca de fácil e interessante sem nos importarmos com a perda dos melhores valores da vida. Tudo o que ocorre de ruim ao nosso redor é fruto disso.


Alberto Magalhães


Imagem: Manifestação na Praça da Paz Celestial/Fonte:Internet/autoria desconhecida.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Carta para Teófilo

Recentemente descobri que o Ser é algo fragmentado, existe em pedaços. Ouvi dizer: Freud explica. Em cada parte de mim um contraste. A criança que não completou sua fase de filho depois da ruptura familiar, o adolescente rebelde, o evangelizador que se comovia com os pobres e os leigos, o agente da lei (idealista e utópico) que enfrentava o malfeitor desvairadamente, o pai perdido entre a responsabilidade de instruir e o amor que lhe confundiam. O bêbado, por vezes. O contraventor. O "subversivo" que inflamava desafetos. A recaída de apaixonado pregador para alguns próximos. O escriba de textos guardados. O amigo que entendia todos os outros e nem sempre era entendido. Tudo junto em alguém, conturbando o senso de direção. Cada um de momento a momento emergindo, se revelando e querendo o seu quinhão, brigando por espaço. Exigindo se formar por inteiro, completar o seu ciclo. Pressionando o hospedeiro até fazê-lo, por um tempo, afastar-se de tudo e de todos.
Alguém, às vezes, já se achou em algum lugar sem saber para onde queria ir ou para quem? Como se quisesse voar pelo mundo a fora, sem fome, sede e sono até se desintegrar? Como ser um indivíduo sem uma unidade? Em vários pedaços que não se completam, mas se contrastam? No entanto tudo amadurece – nesse caso por diferentes sementes, e dá algum fruto, com contornos definidos. Só o tempo, o bom, edificante, revelador e velho tempo para harmonizar o ser e apaziguar todos os fogos, todas as mágoas e todas as culpas e assim desembaçar as nossas visões, sejam reais ou não.

Alberto Magalhães

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O ideal e o seu oposto



Imagens: autoria não identificada/fonte:internet
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E DESTRUIR QUALQUER CERTEZA

A extinção da inocência espiritual – com seus valores elevados e fecundos - é causa da desarmonia humana, da ironia do perverso, da demagogia política, da farsa religiosa, da hipocrisia social.

A vida é do tamanho de sua mente, aonde ela chega você poderá chegar. Os ideais serão alcançados. Bons ou ruins. Os valores abstratos desejados e seguidos darão compensação e equilíbrio aos valores físicos e materiais instintivos do homem fisiológico, tão presentes no seu cotidiano. O instinto deve ser controlado pelo homem espírito, cujas manifestações - inteligência, discernimento, vontade, sentimentos e religiosidade - se dão na mente.

Cada pessoa é responsável pelo equilíbrio social, familiar e do meio ambiente, elo de uma cadeia espiritual construtiva ou destrutiva. A falta de discernimento espiritual, ou seja, a ignorância de si mesmo como ser imaterial e consciente - integrante involuntário da verdade universal, não pessoal- pode estagnar o espírito e destruir qualquer certeza de verdade nesse mundo.


Alberto Magalhães

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AS LÁGRIMAS DA DISCÓRDIA

O homem é agressivo porque não chora? É dito que as lágrimas lavam a alma angustiada, levando - mesmo que temporariamente, a tristeza para fora. E de vez a vez ela acaba indo embora. Quando eu era menino e as lágrimas me escapavam, eu ouvia: você não é homem não? Não, eu não era ainda, estava aprendendo a ser. Coisa que ainda não se findou. Quando eu morrer terei findado a missão. Porque homem também tem que aprender a morrer. O vulnerável heroi do seu lar e de si mesmo.

O choro faz bem. Eu ouvi que as lágrimas acumuladas na alma endurecem o coração. Até já fui castigado quando chorei na infância. Juventude insensível, esta de agora. Não era isso que os pais queriam? Um rapaz que não chora, de coração duro? Preparado para as desilusões e os embates da vida?

As lágrimas nos dizem que somos humanos e que se elas existem têm alguma finalidade, como o suor que elimina as impurezas do corpo. Elas são a voz das profundas emoções. Agora tenho que reaprender a chorar, porque a vontade existe, porém faltam os mecanismos psicológicos para liberar esse elemento refrigerador. Até Boto, o cachorro da minha infância, chorava.

Alberto Magalhães

Imagens: autoria desconhecida/fonte: internet

sábado, 21 de novembro de 2009

Uma tribuna para o povo

(Homenagem ao Cinform, representando toda a imprensa)

A quem a democracia inspirou? Quem sentiu um arrebatamento no peito por um ideal nobre? Ou quem amou a justiça em momentos de ímpetos sublimes, qual paixão juvenil (mas que ficou?). Olho e vejo um Dom Quixote com ares de modernidade a lutar contra vilões reais, enquanto outras pessoas meneiam a cabeça ou olham com desdém: “louco, tolo...” Pensam.

Triste ironia ou sorte cruel, esses mesmos que o criticam um dia – pelo menos um dia, tiveram a honra de sonhar os mesmos sonhos no mais genuíno, autêntico sentimento de patriotismo, civilidade, humanidade que torna o homem digno, em busca do essencial. Hoje se omitem fascinados pelas luzes fáceis, artificiais que não iluminam de verdade, mas deixam uma penumbra envolta em uma aura de falsa decência.

Ele (Dom Quixote) vive de palavras – e palavras são vida. Elas expressam todos os sentimentos, emoções, experiências e, fortuitamente, revelam segredos do coração. E mais que isso: quando usadas com coragem, impulsionadas pela indignação ou simplesmente pelo dever, produzem efeitos, invocam ações, mobilizam pessoas e instituições gerando justiça, quando possível, ou manifestando a injustiça encoberta.

Espinhosa missão. Deturpada por uns, subestimada por outros, porém cale-se e dentro de uma sociedade que será ilimitadamente oprimida, as pedras clamarão.

Só quem não tem a consciência cauterizada pode medir – nos seus integrantes, o grau de desprendimento do pessoal, do conveniente em favor do coletivo. Eu aprendi uma grande lição ao lhe observar melhor. Para mim tu és um dos reflexos da esperança social, instrutor de causas nobres (que vivenciamos – e não que teorizamos – no dia a dia), convertedor de pensamentos que, por consequência de fatores contrários, estavam desgarrados do legítimo Estado de direito, alma sublime da democracia. Outra palavra não fictícia, mas viva, real.

Tu geras algo que é contrário das palavras individualismo, inconsciência, material. Mas eu prefiro não dizer na esperança de que cada um, de si, o decifre.

Autor: Alberto Magalhães


(Publicado no Jornal Cinform em 27 de fevereiro de 1995)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A morte nasce da vida

Para que serve a morte? Muitos do meu tempo já se foram antes de mim, muitos irão depois. A maioria de voluntária vivência insignificante, embora toda vida seja um milagre da natureza.

Viver a vida dos outros é medíocre, viver sob a vontade dos outros é indigno, viver se escravizando à vida é delírio, viver pra juntar ouro é patético, viver ignorando a fugacidade da vida é loucura.

A vida é água que escapa da mão por entre os dedos, raio de sol que reluz um pouco na janela, é a nuvem branca que se dissipa ao vento da primavera, é um sopro que sai de uma mulher e não volta mais, e sai bafejando sopros enquanto se esvai. A vida é só algo que pode ser abraçado em cada pessoa que amamos.

A vida humana tem início, como não teria fim? É só o começo, manifestações e esgotamento de um fenômeno individualmente insignificante para o universo.

A vida só é vida porque existe a morte, senão seria castigo. Os homens não suportariam a si mesmos por uma eternidade. A vida é bela porque a morte é feia, é ela a extinção do sopro vital. Como corrente da alma suprime a vontade, os movimentos, a alegria e a raiva, o riso e a mágoa...

Isso é o que penso da vida.


Alberto Magalhães

Imagem: autoria não identificada/fonte: internet

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O eremita

No verão o dia começa um pouco mais cedo e a noite um pouco mais tarde. Por essa hora, quando o dia misturava-se com a noite, na minha passagem para casa vindo do meu primeiro emprego na adolescência eu via o meu velho amigo eremita, com quem eu conversava um pouco lhe ouvindo falar coisas sobre esse mundo mágico e por vezes intrigante ou assustador. Os seus cabelos já totalmente brancos, sua expressão serena e seu olhar perdido em algum lugar existente na sua memória o faziam respeitável. Ele trabalhava e morava numa pequena sala de um prédio antigo, sede de uma Instituição cultural no centro da cidade. Era um misto de zelador de dia e vigia de noite. Pacato e solitário, às vezes, fazia-me lembrar o fantasma da ópera, coisa que o fez sorrir – coisa rara, quando eu lhe falei.

Ele nunca falava de si mesmo, mas sempre sobre tudo que nos cerca por todo o planeta. Talvez por isso eu não tenha lembrança do seu nome. Ele mais parecia um ET, disfarçado de humano, vindo observar a terra. Comia muito poucas coisas, pouco andava pela cidade, mas sabia sobre tudo. Diariamente lia jornais e ouvia o seu velho rádio, colado com fita adesiva. A sua alimentação se reduzia a banana, amendoim, pão e café em pó - nunca o solúvel granulado, e água.

Enquanto conversávamos ele me servia do seu delicioso café. Ele era impregnado de cultura, um autodidata sequioso pela história universal. Lá no fundo ele parecia decepcionado com o mundo, desgostoso com os rumos tomado pelos povos, insatisfeito com o esvaziamento dos valores tradicionais da família e que, a seu ver, empobrecia a sociedade cada vez mais materialista...

Alberto Magalhães

Imagem: autoria não identificada/fonte: internet

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Mensagem para Teófilo

(sobre um júri popular e um veemente Promotor)


Teófilo, da última vez em que nos vimos tu, pausadamente, disseste-me citando Sêneca: “Somos todos perversos, o que um reprova no outro ele o achará em seu próprio peito.” E discorrestes sobre a fragilidade do homem no seu aspecto moral. No seu discurso havia o sentimento de pesar pela comovente condição humana. Em sua pungente oração, referindo-se aos que se julgam superiores no afã de infringir desmedida penitência a quem lhe está a mercê, disseste-me: “A árvore quando está sendo cortada observa, com tristeza, que o cabo do machado é de madeira.”

Alguns dias depois da tua visita no meu cárcere. Tive a oportunidade de visualizar uma arena jurídica onde tese e antítese digladiavam-se. E era necessário. Uma parte evocava uma vida que se perdera e a outra parte uma vida que se perdia, momento em que absorveu a outra. É desse embate jurídico – quando leal – que se compõe a síntese, que nutre o Estado de direito, alma sublime da democracia.

Lá, fascinei-me com a performance de um homem de leis do qual o seu mestre, amigo Teófilo, pode ter sido um simples aluno. O seu arrebatamento monopolizava os sentidos, em seu ardor parecia personificar as ciências. Mas, como ninguém é perfeito, só incorreu no pecado - por um momento – da linguagem densa como as águas do rio Estige da mitologia grega. Talvez tenha se deixado levar pelo orgulho, “seduzido por uma razão”. Lembro-me de Charbonneau, que lemos juntos: “A razão humana é oscilante, é bela e ao mesmo tempo perniciosa, porque tem o privilégio de enganar, de mentir, de iludir, de fazer o homem se perder no Dédalo de uma consciência falsa. Ela balança entre a revelação e o disfarce”.

No entanto depois vi no orador uma sanha niilista direcionada à personalidade da pessoa alvo, cético quanto a sequer um vislumbre de qualidade moral nela – uma impropriedade, a meu ver. Era quase um ser divino querendo oferecer-lhe uma catarse. Confesso-te, amigo: temi um pouco por ela. Pensei: “Vai subjugá-la com tamanha obstinação.”

Mas, felizmente, convenceu a quem queria não a quem realmente importava: a pessoa alvo. Se tivesse conseguido confundi-la, ai sim, teria conseguido imprimir a sua marca estigmatizadora de forma permanente. Não de modo formal, na efemeridade das palavras ou nos anos perecíveis da sentença, mas na perenidade da alma. Para o infeliz que estava na berlinda ele teria sido um verdugo espiritual, quem sabe até desses que, no fórum da sua consciência, já tenha condenado a si próprio.

Teófilo, eu li que as muitas letras, às vezes, nos fazem delirar e eu como sou apenas um leigo cansei-me um pouco de tudo isso, até mesmo – perdoe-me, de ti. Por isso vou preferir o confinamento de simples oblato e, nessa busca de uma razão para os meus insignificantes dias, recitar o poeta Agostinho: “Senhor, Tu nos fizestes para Ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar, em Ti, descanso.”

Alberto Magalhães

Tribunal do Júri, em Aracaju-SE/escrito em 1995 e publicado no Jornal Cinform em setembro de 1996/
Teófilo: um amigo imaginário/tese e antítese: acusação e defesa/Estige: o rio do inferno, na mitologia grega/ Sanha niilista: defesa da teoria da negação, de forma ferrenha/verdugo: carrasco/Paul Eugène Charbonneau: teólogo e escritor canadense/catarse: purgação, purificação/oblato: leigo que oferecia seus serviços a uma ordem religiosa/o homem de leis: Promotor de Justiça. (anotações feitas a pedido de leitor)

Imagem: autoria não identificada/fonte: internet

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O que você faz pelo país e por você mesmo?


Soberania é o poder político que dá autonomia e independência a uma nação e constitui o Estado. Na democracia o povo é titular do poder político estatal, e elege os mandatários a cada quatro anos como procuradores para representá-lo em seus interesses. Fica aqui uma pergunta: os candidatos nos quais você votou estão realmente defendendo os seus interesses, como eles prometeram em campanha? Ou você nem se interessou em saber quais eram as propostas dos seus candidatos escolhidos para legislar por você ou governar o que é seu? Você se lembra quem foram eles? Você votou apenas em troca de um simples favor? Você observa quais são os políticos que defendem apenas os interesses dos empresários, dos poderosos e deles mesmos? Você reconhece a atuação daquele representante popular que sem demagogia defende os seus interesses (dos eleitores) enquanto profissional ou cidadão, na Câmara municipal, na Assembléia, na Câmara Federal e no Senado da República? Que não figura nas manchetes dos escândalos financeiros que ajudam a empobrecer o povo? Pense nisso. Faça a sua parte. Pegue uma folha de papel passe uma linha no meio, do alto à baixo, e escreva num lado: desonestos. No outro: em observação. Vá escrevendo o nome dos parlamentares e governantes do seu Estado. Quando você se enganar à respeito de algum nome vale riscá-lo de um lado e passá-lo para o outro. Pegue essa folha (a folha corrida do seu arquivo) e coloque na gaveta mais importante da sua casa, afinal é a sua vida e a de seus familiares que estão em jogo. O mais importante: não se esqueça de consultá-la nas eleições. Seja exigente, dignidade se constrói também com o voto.

Alberto Magalhães
Imagem: autoria não identificada/fonte: internet

Frases de uma noite insone



1. - O dia não seria tão belo se não fosse a noite escura.
2. - Se não houvesse a morte a existência não seria tão preciosa.
3. - Cada filho é uma dádiva e uma missão; é um presente com algum preço a saldar.
4. - O dinheiro causa discórdia entre as melhores famílias e desfaz grandes amizades.
5. – As mulheres nem sempre são tão frágeis como aparentam, nem os homens tão rudes quanto demonstram.
6. - A mentira é a arma dos covardes.
7. - A verdade triunfa, mas demanda tempo e sofrimento.
8. - Aos parentes, amigos e amantes cabe o dever de enxergar as virtudes mútuas.
9. - Quem não tem, tudo quer. Quem tem tudo, quer mais.
10. - Deus é para todos, mas uns poucos o guardam em si.
11. - O lar é o refúgio restrito da família. Não se deve desvirtuá-lo.
12. - Não existe fidelidade para aquele que não confia.
13. - A traição ofende ao traído e elimina a confiança que este devotava ao outro.
14. - A falsidade é o recurso dos fracos.
15. - Não existe lealdade no invejoso, no avarento, no egoísta.
16. - Não se ama o que não se admira.
17. - O verdadeiro amigo é aquele que aparece nas horas difíceis.
18. - A vaidade é a mãe dos defeitos.
19. – A ambição é uma trilha para os erros.
20. – Não amar gera solidão no ser. Amar demais, amargura na alma.
21. – Não devemos viver para os outros, nem viver só para nós.
22. – A leitura é a forma mais simples de se tornar uma pessoa observadora, interessante e culta.
23. – Resista, desprestigie os seus defeitos, valorize e divulgue as suas virtudes e as siga sempre.
24. – O sexo deve ser apenas mais uma das satisfações, não a principal.
25. – A necessidade, muitas vezes, faz o homem agir de modo que não gostaria.
26. – Quem sempre teve muito dinheiro não sabe o que significa a necessidade dos outros.
27. – A liberdade incondicional e inconsequente traz um mal grave.
28. – A pessoa que enxerga os outros humanamente tem uma beleza que transcende a da aparência física.
29. – Um amigo pode ser como um irmão, um irmão egoísta torna-se desafeto.
30. - Humildade não é sinônimo de fraqueza, é beleza de alma, é simplicidade de coração. É se esvaziar de si mesmo e interagir com a humanidade do outro.

Alberto Magalhães
Imagem: tela exposta no Louvre, Paris. Autoria não identificada/Fonte: internet

A desagregação social no Brasil

A ignorância do povo é o suporte do sistema na sua estratégia secular de conduzir as massas populares como se fosse impotente em resolver efetivamente os conflitos resultantes das relações sociais. A iniquidade governamental, é notório, não atinge o cume da pirâmide social. Antes lhe é aliada contra os interesses daqueles que estão fora do círculo vicioso do poder temporal, notadamente nos países pobres ou emergentes.

O grupo que detém o poder econômico, em sua promiscuidade com o poder político, sempre resistiu às mudanças sociais impondo exclusões. Pobreza e degradação humana são os resultados mais perversos de uma nação injusta. Todos os deveres da lei (inclusive fiscal) são para os pobres, embora os direitos nem sempre. A teoria do sistema, aplicada até nas “democracias”, diz que os cidadãos privilegiados devem ficar imunes às consequências da degradação da sociedade, por isso os setores de repressão devem funcionar exemplarmente. Mas a hipocrisia permite que se diga que a preocupação real é com o povo.

O descaso quanto à efetiva consolidação do estado de direito é tão arraigada na nossa cultura que se sacrifica a dignidade e o bem estar dos trabalhadores comuns – matéria prima do desenvolvimento da nação - pelo lucro especulativo das elites. A questão abrange a qualidade de vida nas cidades, a degradação ambiental – com a invasão de mangues para moradia, o surgimento de favelas, o desemprego, a mendicância, as hordas de doentes, o aumento da criminalidade. Tudo isso gera um retorno desagradável e perigoso para todos. Causa uma instabilidade social, a vulnerabilidade – em todos os sentidos - do cidadão, a impotência do Ser diante da sua realidade. Este Ser, base e objetivo do pacto social no sentido mais nobre de sociedade: igualitária, justa e fraterna.

As gritantes desigualdades sociais desgastam a democracia, relegando a própria condição humana e redundam numa traição histórica. Aliado à corrupção alimentam a miséria, que gera a degradação social. Enquanto se der prioridade aos acontecimentos secundários e não às causas, há de se promover as mazelas a todo o corpo social, quando se pensa que o faz apenas aos seus membros menos ilustrados. A elite não pode viver sem contato com a plebe da qual, inclusive, de certa forma tende a tornar-se refém, caso semelhante ao do feitiço que se vira contra o feiticeiro.

Os jornalistas, os professores, os políticos idealistas, os escritores são importantes instrumentos para que possamos repensar todas essas questões a partir dos diversos prismas no interesse de nos conscientizarmos sobre a nossa realidade e perspectiva. Como disse o escritor Ernesto Sábato, “Pode haver um confronto de ideologias, mas não uma crise de ideias... assim como nada justifica a tortura, nem que as crianças morram de fome”.

1985

Alberto Magalhães
Imagem: tela de Tarsila do Amaral/Fonte: internet

As escalas de poder


Ou a reprodução do autoritarismo

Desde o início da civilização humana os que estão fora do poder político ou econômico sempre se opõem aos que compõem o sistema de mando e de subjugação do próximo, pelos abusos cometidos.

A história já registrou muitas guerras, bem como levantes, revoluções, combates físicos grupais ou pessoais motivados pela insatisfação de se submeter ao comando – ou às diretrizes, de outrem.

No entanto já paramos para observar quantos redutos de poder existem ao nosso redor, divididos em escalas diversas? Nos lares, nas escolas, nas empresas, nas instituições, nas repartições públicas, nos relacionamentos interpessoais? Antes de entrarmos nessa seara, voltemos ao exemplo elementar do sistema celeste: os astros da via láctea gravitam em torno do sol, governados pelo astro rei. No átomo existe o núcleo que reúne as cargas elétricas que o compõe. Todo sistema tem o seu centro de convergência, sem o qual o desequilíbrio levaria a um colapso e à sua autodestruição.

Nas sociedades animal e humana há os sistemas de hierarquia, os núcleos de comando. Na sociedade animal as divergências são resolvidas no campo do embate físico, na luta por território e pelas fêmeas do grupo. Na sociedade humana há sempre os conflitos de interesses. Os embates são nos campos jurídico, político, profissional e por vezes no bélico.

No nosso país estamos sempre assistindo a episódios de abuso no exercício do poder, de injustiças contra os cidadãos brasileiros praticados por quem deve efetivamente estabelecer os princípios do verdadeiro Estado democrático de direito. O centro da questão é que as pessoas quase sempre se aproveitam da oportunidade do exercício do poder para oprimir, perseguir, manipular ou explorar as outras pessoas por interesse pessoal, corporativo ou do próprio sistema que o opressor integra.

O que é desconcertante é perceber que as pessoas reproduzem o comportamento histórico dos que governam com autoritarismo, em todas as escalas de poder: na direção da entidade associativa, na Instituição pública, nas corporações policiais e militares, nas repartições públicas, nas empresas, no lar... E ainda não aceitam a discordância de quem não quer ser manipulado, injustiçado. O que é pior ainda é que os opressores nas suas tendências maquiavélicas e intolerantes contam com alguns dos próprios parceiros dos oprimidos nas suas medidas de retaliações contra os que não se alinham às suas ações impróprias e arbitrárias.

A democracia é o mais alto estágio das civilizações, é um regime que foi pensado e implantado na maioria dos países porque beneficia a todos, sem exceção. Ele já está aprimorado, consolidado e não mais se aceita retrocessos para beneficiar aos que estão no topo de algum dos seus seguimentos, seja no governamental, político, institucional, religioso, etc.

Alberto Magalhães
Imagem: autoria não identificada/Fonte: internet

O império da vaidade


Nos dias atuais não basta ter um carro, ele tem que ser top de linha; não basta ter um celular, ele tem que ser dos melhores; não basta ter um computador, ele tem que ser de última geração; Não basta ter boas roupas, elas têm que ser de griffes famosas. Tudo tem que ter marca de prestígio no mercado. O que as pessoas estão fazendo consigo mesmas? Para onde estão indo? Provavelmente para o caminho do consumismo compulsivo que leva ao endividamento em busca, muitas das vezes, de futilidades.

Seguindo a tendência de se destacar dos outros, as pessoas trazem tatuagens no corpo com variadas formas e idéias no intuito de enfeitar o corpo transmitindo uma mensagem seja de amor por alguém, por pura irreverência ou uma mensagem política, mesmo que sutil. Nesse sentido o objetivo da aparecer está em evidência.

O consumismo da moda faz com que a pessoa traga marcas sobre o corpo (em roupas, bolsas, relógios, sapatos, celulares) que semelhante aos tatuados geralmente o identificam a um determinado grupo, que muitas das vezes nem é o seu verdadeiramente. Ainda tem os automóveis caros, as festa dadas. O objetivo nisso tudo é o de aparentar algo que lhe traz satisfação. O que não é ruim. O que não é bom é se isso custar um preço maior do que a pessoa possa desembolsar e a leve a ter problemas que lhe deixe encrencada e infeliz. As encrencas podem ser cobradores à porta, inimizades, má fama, ações nos juizados de pequenas causas, nome inserido no SPC, Serasa...

As diferenças da marca no corpo e sobre o corpo é que a primeira só se investe dinheiro com ela uma única vez, a segunda interminavelmente. A primeira é permanente, mesmo que não se queira mais (a não ser utilizando a cirurgia a laser para a remoção), a segunda tem a vantagem da transformação e da versatilidade. Diz a sabedoria popular que em demasia nada é bom.

Alberto Magalhães
Imagem: autoria não identificada/Fonte: internet